domingo, maio 22, 2016

André Gide


'Nossos livros não terão sido relatos muito verídicos de nós mesmos - mas antes nossos desejos lamentosos, o anseio de outras vidas inteiramente proibidas, de todos os gestos impossíveis. Descrevo aqui um sonho que ocupou por demais meu pensamento e reclamou sua existência. Um desejo de felicidade que esta primavera me deixou; desejei que brotasse de mim uma eclosão mais perfeita. Sonhei ser feliz, como se não tivesse nada mais para ser; como se o passado não triunfasse sempre sobre nós; como se a vida não fosse feita do hábito de sua tristeza, e o amanhã a sequência do ontem - como se a minha alma já não estivesse hoje de volta aos seus estudos costumeiros, tão logo liberta de seu sonho'.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Mar


Enquanto Deus faz pontos riscados de luz no céu, meus pés desenham em prece efêmeros poços na areia. Os passos repetem num mantra o desejo que no caminho que trilho as marcas sejam de mar. Nas mãos brinca o instante, em eterno fort-da. O vento rege o compasso do tempo fazendo firulas nas águas. Circular. Mas é a luz que fazendo dançar as sombras ao redor das coisas, que esculpe as horas. Meu tempo, essa peça de tecido, já tão gasto. Deus, por vezes, também amarrota os dias. Esquece. Na tua epiderme meu indicador percorre essas palavras que suspiram. Água e sal. Pra não esquecer. Quero reencontrar a minha justa medida. Essa vastidão. Teu olhar. Rosas brancas em troca de rédeas. O destino sorri. Carta da lua. As três virtudes teologais. E essa vontade. Já cansada.
*
*
 * 
Cecília Braga


Mediterraneo
Eugenio Montale

Antico, sono ubriacato dalla voce
ch'esce dalle tue bocche quando si schiudono
come verdi campane e si ributtano
indietro e si disciolgono.
La casa delle mie estati lontane,
t'era accanto, lo sai,
là nel paese dove il sole cuoce
e annuvolano l'aria le zanzare.
Come allora oggi in tua presenza impietro,
mare, ma non più degno
mi credo del solenne ammonimento
del tuo respiro. Tu m'hai detto primo
che il piccino fermento
del mio cuore non era che un momento
del tuo; che mi era in fondo
la tua legge rischiosa: esser vasto e diverso
e insieme fisso:
e svuotarmi così d'ogni lordura
come tu fai che sbatti sulle sponde
tra sugheri alghe asterie
le inutili macerie del tuo abisso.

Antigo, estou embriagado pela voz
que sai das tuas bocas quando se abrem
como verdes campanas e recuam e se dissolvem.
A casa dos meus verões longínquos,
era ao teu lado, tu sabes,
lá onde o sol escalda 
e os mosquitos anuviam o ar.
Hoje, como então, estou petrificado na tua presença,
mar,  mas não mais digno
me creio da solene advertência
da tua respiração.
Tu me disseste antes
que o pequeno fermento
do meu coração não passava de um momento
do teu; que estava em mim
a tua lei arriscada: ser vasto e diverso
e ao mesmo tempo fixo:
e esvaziar-me assim de toda sujeira
como tu fazes ao atirar nas margens
entre cortiças algas astérias
os inúteis destroços do teu abismo.

Tradução livre in: O dia em que matei meu pai de Mario Sabino.

terça-feira, novembro 24, 2015

Ferreira Gullar


'Eu colho a ausência que me queima as mãos'. 

sexta-feira, novembro 06, 2015

terça-feira, outubro 27, 2015

Deus-queira.



Assim: sentava, com o espírito irrequieto lhe pesando nos braços, e tentava reger a vida com a inquietação dos pés. Três pensamentos, um suspiro engolfando gritos. O dedo anelar deslizando ao som dos seus desejos, sobre esse universo que se expande sob a sua pele. De-va-gar. Divagando realinhar a posição das estrelas, planetas e lua e mantê-los ali, alinhavados um-a-um sob estas horas escuras do dia, só pra ascender aos olhos a esperança. E mantê-la aquecida, ainda que seja pelo atrito das mãos da angústia procurando um lugar para aquietar-se no peito. Depois, sorri. Às vezes, a gente teima em desalinhar os chakras, pra se alinhar com o outro. E traz para si o Arcano XVIII: A lua. Sob sua luz, rememora ponto-a-ponto, em ponto cruz, suas escolhas. Cerzindo passado e futuro. Decide. Seus passos, movimento, a roda, o destino: em direção ao centro. 
*
*
Cecília Braga 

segunda-feira, outubro 05, 2015

Primeiros Encontros


Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, como a Epifania
No mundo inteiro, nós dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio,
No outro lado, para além do espelho.

Quando chegava a noite eu conseguia a graça,
Os portões do altar se escancaravam,
E nossa nudez brilhava na escuridão
Que caía vagarosa. E ao despertar
Eu dizia, "Abençoada sejas!"
E sabia que minha benção era impertinente:
Dormias, os lilases estendiam-se da mesa
Para tocar tuas pálpebras com um universo de azul,
E tu recebias o toque sobre as pálpebras,
E elas permaneciam imóveis, e tua mão ainda estava quente.

Havia nos vibrantes dentro do cristal,
Montanhas assomavam por entre a neblina, mares espumavam,
E tu seguravas uma esfera de cristal nas mãos,
Sentada num trono ainda adormecida.
E — Deus do céu! — tu me pertencias.
Acordavas e transfiguravas
As palavras que as pessoas pronunciam todos os dias,
E a fala enchia-se até transbordar
De poder ressonante, e a palavra ' 'tu''
Descobria seu novo significado: "rei".
Objetos comuns transfiguravam-se imediatamente,
Tudo — o jarro, a bacia — quando,
Entre nós como uma sentinela,
Era colocada a água, laminar e firme.

Éramos conduzidos, sem saber para onde;
Como miragens, diante de nós recuavam
Cidades construídas por milagre,
Havia hortelã silvestre sob nossos pés,
Pássaros faziam a mesma rota que nós,
E no rio peixes nadavam correnteza acima,
E o céu se desenrolava diante de nossos olhos.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.

Arseni Tarkovski





quarta-feira, setembro 16, 2015

Camus,

Hoje, me sinto livre em relação ao meu passado e ao que perdi. Só quero esse aperto e esse espaço fechado - esse fervor lúcido e paciente. E como pão quente que se aperta e que se reduz a quase nada, eu quero apenas ter minha vida nas mãos, como aqueles homens que souberam encerrar suas vidas entre flores e colunas. E ainda essas longas noites de trem nas quais se pode falar consigo mesmo e se preparar para viver, de si para si, e a paciência admirável de retomar ideias, apanhá-las em sua fuga, e ainda avançar. Lamber a vida como um torrão doce, moldá-la, afiá-la, amá-la enfim, como se busca a palavra, a imagem, a frase definitiva, aquilo ou aquela que conclui, que detém, com o que se partirá e que fará dali em diante todo o colorido do nosso olhar. Eu bem que poderia parar aí, encontrar finalmente o termo de um ano de vida desenfreada e louca. Essa presença de mim diante de mim mesmo - meu esforço é levá-la até o limite, mantê-la diante de todas as faces de minha vida, mesmo ao preço da solidão, que eu sei agora o quanto é difícil suportar. Não ceder: tudo está ali. Não consentir, não trair. Toda minha violência me ajuda nisso e, no  ponto em que ela me leva, meu amor me reencontra e, com ele, a furiosa paixão de viver que dá sentido aos meus dias.

Sempre que cedemos (que eu cedo) às próprias vaidades, sempre que pensamos e vivemos para "parecer", nos traímos. Todas as vezes, sempre foi a desgraça de querer parecer que me diminuiu diante do verdadeiro. Não precisamos nos entregar aos outros, mas somente àqueles que amamos. Pois nesse caso não se trata mais de se entregar para parecer, mas somente para oferecer. Quando é necessário, um homem tem muito mais força do que parece. Ir até o limite é saber guardar seu segredo. Eu sofri por ser sozinho, mas, por ter guardado meu segredo, venci o sofrimento de ser sozinho. E hoje não conheço maior glória que viver sozinho e ignorado. Escrever, minha alegria profunda" Consentir ao mundo e ao prazer - mas somente no desnudamento. Eu não queria ser digno de amar a nudez das praias se não soubesse ficar nu diante de mim mesmo. Pela primeira vez, o sentido da palavra felicidade não me parece duvidoso. É um pouco o contrário do que se entende pelo banal "eu sou feliz".

Certa continuidade no desespero acaba por gerar a alegria. E os mesmos homens que, em San Francesco, vivem diante das flores vermelhas, têm seu aposento o crânio que alimenta suas meditações, com Florença pela janela e a morte sobre a mesa. Em minha opinião, se eu me sinto em um ponto decisivo da minha vida, não é por causa do que adquiri, mas do que perdi. Sinto que tenho uma extrema e profunda força. É graças a ela que devo viver, da maneira como desejo. Se hoje me encontro tão distante de tudo, é porque não tenho outra capacidade além de amar e admirar. Vida com a aparência de lágrimas e sol, vida sem o sal e a pedra quente, vida como eu gosto e desejo, me parece que ao acariciá-la, todas as forças do desespero e do amor se conjugarão.

Hoje não é como uma hesitação entre sim e não. Mas hoje é sim e é não. Não para revolta diante de tudo o que não são lágrimas e  sol. Sim para a minha vida da qual sinto pela primeira vez a promessa por vir. Um ano fervilhante e desordenado que termina e a Itália; a incerteza do futuro, mas a liberdade absoluta diante de meu passado e de mim mesmo. Aí está minha pobreza e única riqueza. É como se eu recomeçasse a partida; nem mais feliz nem mais infeliz. Mas com a consciência de minhas capacidades e, o desprezo de minhas vaidades e essa febre, lúcida, que me lança diante de meu destino".

(Anotação feita em 15/09/1937 - do caderno: Esperança do mundo (1935-37). São Paulo: Hedra, 2014, p.66-69.

Lirinha, Ê- Lã. Fã, demais. Merecedor dos gestos mais bonitos.


sexta-feira, agosto 07, 2015

'O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo'. Mia Couto

'O tempo é um rio formado pelos eventos, uma torrente impetuosa. Mal se avista uma coisa, já foi arrebatada e outra se lhe segue, que será carregada por sua vez'. Marco Aurélio, Meditações.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Que assim seja.

'Habitua-te a dar plena atenção ao que outrem diz e, quanto possível, penetrar na alma de quem fala'. Marco Aurélio, Meditações.
 
'Tempo assim estive, que deve ter sido longo. Ouvindo. Passara toda a minha atenção para os ouvidos.
(...). Tão claro e inteiro me falava o mundo, que, por um momento, pensei em poder sair dali, orientando-me pela escuta'. Guimarães Rosa, São Marcos.

quarta-feira, agosto 05, 2015

Marco Aurélio, Meditações:

Não te compliques; faze-te simples.

sexta-feira, julho 31, 2015

&*

'E também quis ser. Aliás, só quis isso; eis a chave de minha vida: no fundo de todas essas tentativas que parecem desvinculadas, encontro o mesmo desejo: expulsar a existência para fora de mim, esvaziar os instantes de sua gordura, torcê-los, secá-los, me purificar, endurecer, para produzir finalmente o som claro e preciso de uma nota de saxofone'. A Naúsea - Sartre.

terça-feira, julho 28, 2015

A poética dos espaços, Bachelard.

É preciso dizer então como habitamos nosso espaço vital de acordo com todas as dialéticas da vida, como nos enraizamos, dia a dia, num "canto do mundo".

sexta-feira, julho 24, 2015

Jean-Luc Godard, Aimé Pache e o ato de resistência. Liberté et Patrie: "A imagem era mistério e perigo".

Curta sobre Aimé Pache, pintor de Vaud, Suíça.
 
'Como velho revolucionário, o pai não acreditava no poder das imagens, mas sim no poder das palavras.
- Pai, quero escrever para minha namorada.
- Vá em frente
- Quero dizer...mas não sei como colocar... que perdemos o trem, mas que ainda temos tempo...
- Escreva: "Não sei como colocar, mas quero dizer... quer perdemos o trem...".
- Mas foi isso que eu disse.
- Exatamente.
- É assim que se escreve?
- Sim, é assim que se escreve.
(...)
- Pai, qual é o melhor modo de saber se alguém é digno de confiança?
- Pergunte: "O que você leu?". Se responder: "Homero, Shakespeare, Balzac", então não é digno de confiança. Mas se responder: "Depende do que quer dizer com ler", então há esperança.
(...)
Descobre um velho caderno escolar com uma frase misteriosa de um ensaio francês. "Nem o sol  nem a morte encaram a própria face". Agora que seus pais estão mortos, finalmente compreende.
 - Compreende como?
- O caderno está cheio de rabiscos, mas pode ler isso: "Um substantivo é apropriado quando tem um único sentido". E abaixo: "O que é apropriado ao sol?". E mais abaixo: "O sol é um exemplo de um ser sensível por excelência, porque sempre pode desaparaecer. O mais inato na natureza é poder tirar tudo de si mesma, tudo o que necessita". E depois: "Traga a natureza para a pintura".
 




quinta-feira, julho 23, 2015

'O de que se trata é menos lembrar do que reescrever a história', Lacan.

 
Rythy Pahn, cineasta cambojano e sobrevivente do genocídio sofrido por seu país entre os anos de 1975 e 1979.  “A Imagem que Falta” utiliza poeticamente antigas imagens e bonecos entalhados para recriar esses anos de terror onde o Camboja era governado pelo Khmer Vermelho. Quase dois milhões de cambojanos morreram no período. Rithy Panh procurava a imagem que falta: uma fotografia do Camboja tirada entre 1975 e 1979 pelo Khmer Vermelho: 'por si só, é claro, uma imagem não pode provar o genocídio, mas encoraja-nos a pensar, a meditar ou a escrever na história', até entender: 'essa imagem precisa faltar. Não a procuro mais. Não seria obscena sem um significado? Então a produzi. O que lhes apresento hoje...não é uma imagem ou a busca por uma imagem. Mas a imagem de uma busca como o cinema permite'. Pahn, faz sinthoma. E produz uma obra de arte que é ato de resistência.
 
&
 
"Vejam o que é propriamente cinematográfico. (...). Fazer uma disjunção do visual e do sonoro. (...). Mas esta é uma idéia estreitamente cinematográfica, a de assegurar a disjunção do ver e do falar. (...). Uma voz 'fala' de alguma coisa, ao mesmo tempo nos faz 'ver' outra coisa, e enfim, aquilo de que nos falam está 'sob' aquilo que nos fazem ver. (...). A palavra se eleva no ar... ao mesmo tempo em que a terra que vemos se afunda cada vez mais, ou antes, ao mesmo tempo que isso de que essa palavra (que se eleva no ar) nos falaria, isso de que ela nos falaria... se afunda sob a terra. (...). Já que aquilo que vemos  é unicamente a terra deserta. Mas essa terra deserta está como que grávida  daquilo que há embaixo dela. (...). É exatamente isso de que a voz nos fala. (...). E se a terra e a voz nos fala de cadáveres, de toda linhagem de cadáveres que tomam lugar sob a terra, nesse momento, o menor frêmito de vento sobre a terra deserta, sobre o espaço vazio (que vocês tem sob os olhos), nessa terra deserta, etc, tudo isso fará sentido.
 
A obra de arte não é um instrumento de comunicação. Há uma afinidade fundamental entre a obra de arte e o ato de resistência. (...). Sim, a título de resistência, qual é esta relação misteriosa entre a obra de arte e um ato de resistência? (...). Malraux desenvolve um bom conceito filosófico. Malraux diz uma coisa muito simples sobre a arte. Ele diz: 'É a única coisa que resiste à morte'. (...). Reflitam: o que é que resiste à morte? (...). A arte é isso que resiste, é isso que resiste. Ainda que não seja a única coisa que resiste (...). O ato de resistência não é uma obra de arte, se bem que de uma certa maneira ela faça parte dele. A obra de arte não é um ato de resistência, e entretanto, de uma certa maneira ela o é. (...).  Ora qual é este ato de fala que se eleva no ar, enquanto que seu objeto se afunda na terra? Resistência. Ato de Resistência. (...). De 'Moisés e Aarão' ao último Kafka. De passagem, e eu cito sem ordem, não sei a ordem: de 'Não Reconciliados' até 'Bach', é o quê? É essa música, essa música que é ato de resistência. Ato de resistência contra o que? Não é ato de resistência abstrato, é ato de resistência contra e de luta ativa contra a separação entre o sagrado e o profano. E esse ato de resistência na música culmina em um grito. Tal como há um grito em 'Woyzek', há um grito em 'Bach'. (...).
 
Tudo isso deve ser visto em um duplo aspecto. O ato de resistência, me parece, tem duas faces: ele é humano e é também um ato de arte. Somente o ato de resistência resiste à morte, seja sob a forma de uma obra de arte, seja sob a forma de uma luta entre os homens. E qual relação haveria entre a luta entre os homens e a obra de arte? A relação mais estreita e para mim a mais misteriosa, exatamente o que Paul Klee queria dizer quando afirmava: 'Pois bem, falta o povo'. O povo falta e ao mesmo tempo não falta. E essa afinidade fundamental entre a obra de arte e um povo que ainda não existe nunca será clara. Não existe uma obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe".
 
O que é o ato de criação?, conferência proferida por Gilles Deleuze  no Mardis de la Fondation em 17 de março de 1987.

quinta-feira, julho 16, 2015

Sonhos - Deleuze, Borges e Waking Life.



Mas eu penso em Minnelli. Minnelli, ele tem, me parece, uma idéia extraordinária sobre o sonho. (...). E a grande idéia de Minnelli sobre o sonho, me parece, é que o sonho concerne, antes de tudo, àqueles que não sonham. O sonho daqueles que sonham concerne àqueles que não sonham. E por que isto os concerne? Porque sempre que há sonho do outro, há perigo. A saber: o sonho das pessoas é sempre um sonho devorador que ameaça nos engolir.
E que os outros sonhem, é muito perigoso, e que o sonho é uma terrível vontade de potência, e que cada um de nós é mais ou menos vítima dos sonhos dos outros, mesmo quando se trata da mais graciosa garota, trata-se de uma terrível devoradora, não por sua alma, mas pelos seus sonhos.
Desconfiem do sonho do outro, pois se vocês forem tomados no sonho do outro, vocês estarão perdidos.
Não sejam jamais apanhados pelo sonho do outro.
 
O que é o ato da criação?, por Gilles Deleuze - trecho desta conferência proferida no "Mardis de la Fondation", em 17 de março de 1987.
 
&
 
As Ruínas Circulares, Jorge Luís Borges.
 
And if he left off dreaming about you…
Through the Looking-Glass, IV
 
Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumindo-se no lodo sagrado, mas em poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que sua pátria era uma das infinitas aldeias que estão águas acima, no flanco violento da montanha, onde o idioma zenda não se contaminou de grego e onde é infreqüente a lepra. O certo é que o homem cinza beijou o lodo, subiu as encostas da ribeira sem afastar (provavelmente, sem sentir) as espadanas que lhe dilaceravam as carnes e se arrastou, mareado e ensangüentado, até o recinto circular que coroa um tigre ou cavalo de pedra, que teve certa vez a cor do fogo e agora a da cinza. Esse círculo é um templo que os incêndios antigos devoraram, que a selva palúdica profanou e cujo deus não recebe honra dos homens. O forasteiro estendeu-se sob o pedestal. O sol alto o despertou. Comprovou sem assombro que as feridas cicatrizaram; fechou os olhos pálidos e dormiu, não por fraqueza da carne, mas por determinação da vontade. Sabia que esse templo era o lugar que seu invencível propósito postulava; sabia que as árvores incessantes não conseguiram estrangular, rio abaixo, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que sua imediata obrigação era o sonho. Por volta da meia-noite, despertou-o o grito inconsolável de um pássaro. Rastros de pés descalços, alguns figos e um cântaro advertiram-no de que os homens da região haviam espiado respeitosos seu sonho e solicitavam-lhe o cuidado ou temiam-lhe a mágica. Sentiu o frio do medo e na muralha dilapidada buscou um nicho sepulcral e se tapou com folhas desconhecidas.
O objetivo que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse projeto mágico esgotara o inteiro espaço de sua alma; se alguém lhe perguntasse o próprio nome ou qualquer traço de sua vida anterior, não teria acertado na resposta. Convinha-lhe o templo inabitado e derruído, porque era um mínimo de mundo visível; a vizinhança dos lavradores também , porque estes se encarregam de suprir suas necessidades frugais. O arroz e as frutas de seu tributo eram pábulo suficiente para seu corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.
No começo, eram caóticos os sonhos; pouco depois, foram de natureza dialética. O forasteiro sonhava-se no centro de um anfiteatro circular que era de certo modo o templo incendiado: nuvens de alunos taciturnos fatigavam os degraus; os rostos dos últimos pendiam há muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos. O homem ditava-lhes lições de Anatomia, de Cosmografia, de magia: as fisionomias concentravam-se ávidas e procuravam responder com entendimento, como se adivinhassem a importância daquele exame, que redimiria em cada um a condição de vã aparência e o interpolaria no mundo real. O homem, no sonho e na vigília, considerava as respostas de seus fantasmas, não se deixava iludir pelos impostores, previa em certas perplexidades uma inteligência crescente. Buscava uma alma que merecesse participar no universo.
Depois de nove ou dez noites, compreendeu, com alguma amargura, que não podia esperar nada daqueles alunos que passivamente aceitavam sua doutrina e sim daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição, não podiam ascender a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora também as tardes eram tributárias do sonho, agora velava apenas um par de horas no amanhecer) licenciou para sempre o vasto colégio ilusório e ficou com um só aluno. Era um rapaz taciturno, citrino, indócil às vezes, de feições afiladas repetindo as de seu sonhador. A brusca eliminação de seus condiscípulos não o desconcertou por muito tempo; seu progresso, no fim de poucas lições particulares, pôde maravilhar o mestre. Não obstante, sobreveio a catástrofe. O homem, um dia, emergiu do sono como de um deserto viscoso, olhou a luz vã da tarde que, à primeira vista, confundiu com a aurora e compreendeu que não sonhara. Toda essa noite e todo o dia, contra ele se abateu a intolerável lucidez da insônia. Quis explorar a selva, extenuar-se; somente alcançou entre a cicuta aragens de sonho débil, listradas fugazmente de visões do tipo rudimentar: inaproveitáveis. Quis congregar o colégio e apenas havia articular algumas breves palavras de exortação, este se deformou, se apagou. Na quase perpétua vigília, lágrimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos.
Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que se compõem os sonhos é o mais árduo que pode empreender um homem, ainda que penetre todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma corda de areia ou amoedar o vento sem efígie. Compreendeu que um fracasso inicial era inevitável. Prometeu esquecer a enorme alucinação que no começo o desviara e buscou outro método de trabalho. Antes de exercitá-lo, dedicou um mês à recuperação das forças que o delírio havia exaurido. Abandonou toda premeditação de sonhar e quase imediatamente conseguiu dormir uma razoável parte do dia. As raras vezes que sonhou, durante esse período, não reparou nos sonhos. Para reatar a tarefa, esperou que o disco da lua fosse perfeito. Logo, à tarde, purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetário, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e dormiu. Quase subitamente, sonhou com um coração que pulsava.
Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, cor grená na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto ou sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante quatorze lúcidas noites. Cada noite, percebia-o com maior evidência. Não o tocava: limitava-se a testemunhá-lo, observá-lo, talvez corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o, de muitas distâncias e ângulos. Na décima quarta noite, roçou a artéria pulmonar com o indicador e após todo o coração, por fora e por dentro. O exame o satisfez. Deliberadamente não sonhou durante uma noite: logo retomou o coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a visão de outro dos órgãos principais. Antes de um ano chegou ao esqueleto, às pálpebras. O pêlo inumerável foi talvez a mais difícil tarefa. Sonhou um homem inteiro, um moço, mas este não se incorporava nem falava, nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem sonhava-o adormecido.
Nas cosmogonias gnósticas, os demiurgos amassam um vermelho Adão que não consegue pôr-se de pé; tão inábil e tosco e elementar como esse Adão de pó era o Adão de sonho que as noites do mago tinham fabricado. Uma tarde, o homem quase destruiu toda a sua obra, mas se arrependeu. (Mais lhe teria valido destruí-la.) Esgotados os votos aos numes da terra e do rio, arrojou-se aos pés da efígie que talvez fosse um tigre e talvez um potro, e implorou seu desconhecido socorro. Nesse crepúsculo, sonhou com a estátua. Sonhou-a viva, trêmula: não era um atroz bastardo de tigre e potro, mas simultaneamente essas duas criaturas veementes e também um touro, uma rosa, uma tempestade. Esse múltiplo deus revelou-lhe que seu nome terrenal era Fogo, que nesse templo circular (e noutros iguais) prestavam-lhe sacrifícios e culto e que magicamente animaria o fantasma sonhado, de tal sorte que todas as criaturas, exceto o próprio Fogo e o sonhador, julgassem-no um homem de carne e osso. Ordenou-lhe que uma vez instruído nos ritos, remetesse-o ao outro templo derruído, cujas pirâmides persistem águas abaixo, para que alguma voz o glorificasse naquele edifício deserto. No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.
O mago executou essas ordens. Consagrou um prazo (que finalmente abrangeu dois anos) para desvendar-lhe os arcanos do universo e do culto do fogo. Intimamente, doía-lhe separar-se dele. Com o pretexto da necessidade pedagógica, dilatava diariamente as horas dedicadas ao sonho. Também refez o ombro direito, talvez deficiente. Às vezes, inquietava-o uma impressão de que tudo isso havia acontecido… Em geral, eram-lhe felizes os dias; ao fechar os olhos pensava: Agora estarei com meu filho. Ou, mais raramente: O filho que gerei me espera e não existirá se eu não for.
Gradualmente, habituou-o à realidade. Uma vez determinou-lhe que embandeirasse um cume longínquo. No outro dia, flamejava a bandeira no cimo. Esboçou outras experiências análogas, cada vez mais audazes. Compreendeu com certo desgosto que seu filho estava pronto para nascer – e talvez impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez e enviou-o ao outro templo cujos despojos branqueiam rio abaixo, a muitas léguas de inextricável selva e pântano. Antes (para que nunca soubesse que era um fantasma, para que se acreditasse um homem como os outros) infundiu-lhe o esquecimento total de seus anos de aprendiz.
Sua vitória e sua paz ficaram embaciadas de fastio. Nos crepúsculos do entardecer e da alba, prostrava-se diante da figura de pedra, talvez imaginando que seu filho irreal praticasse idênticos ritos, noutras ruínas circulares, águas abaixo; de noite, não sonhava, ou sonhava como fazem todos os homens. Percebia com certa palidez os sons e formas do universo: o filho ausente se nutria dessas diminuições de alma. O propósito de sua vida fora atingido; o homem persistiu numa espécie de êxtase. No fim de um tempo que certos narradores de sua história preferem computar em anos e outros em lustros, dois remadores o despertaram, à meia-noite: não pôde ver seus rostos, mas lhe falaram de um homem mágico, num templo do Norte, capaz de tocar o fogo e não queimar-se. O mago recordou que de todas as criaturas que constituem o orbe, o fogo era o único que sabia ser seu filho um fantasma. Essa lembrança, apaziguadora no princípio, acabou por atormentá-lo. Temeu que seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de alguma maneira sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou (que permitiu) numa simples confusão ou felicidade; é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado entranha por entranha e traço por traço, em mil e uma noites secretas.
O final de suas cavilações foi brusco, mas o anunciaram alguns sinais. Primeiro (no término de uma longa seca) uma remota nuvem numa colina, leve como um pássaro; logo, para o Sul, o céu que tinha a cor rosa da gengiva dos leopardos; depois as fumaradas que enferrujam o metal das noites; depois a fuga pânica das bestas. Porque se repetiu o acontecido faz muitos séculos. As ruínas do santuário do deus do fogo foram destruídas pelo fogo. Numa alvorada sem pássaros, o mago viu cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas em seguida compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-lo dos trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.
 
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 E, quando se percebe, que se é um personagem sonhado no sonho de outra pessoa, isso é consciência de si.
Waking Life -  Trecho do Filme
 
 
 
 

quarta-feira, julho 01, 2015

A Literatura ou a vida...


Eis o que pensei: para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. É isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver sua vida como se a narrasse.
Mas é preciso escolher: viver ou narrar.
(...)
Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias, sem rima nem razão: é uma soma monótona e interminável. De quando emquando se procede a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim: nunca deixamos uma mulher, um amigo, uma cidade, de uma só vez. E também tudo se parece: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de 15 dias é tudo igual. Por alguns momentos - raramente - avaliamos a situação, percebemos que nos envolvemos com uma mulher, que nos metemos numa confusão. Por um átimo.
Depois disso o desfile recomeça, voltamos a fazer conta das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, Maio, junho. 1924,1925,1926.
Viver é isso. Mas quando se narra a vida, tudo muda; simplesmente é uma mudança que ninguém nota: a prova é que se fala de histórias verdadeiras. Como se fosse possível haver histórias verdadeiras; os acontecimentos acorrem num sentido e nós os narramos em sentido inverso. Parecemos começar do início: "Era uma bela noite de outono de 1922. Eu era escrevente de tabelião em Marommes". E na verdade foi pelo fim que começamos. Ele está ali, invisível e presente, é ele que confere a essas poucas palavras a pompa e o valor de um começo.
(...)
Quis que os momentos de minha vida tivessem uma sequência e uma ordem como os de uma vida que recordamos. O mesmo, ou quase, que tentar capturar o tempo.
 
Jean - Paul Sartre, A Naúsea.

segunda-feira, junho 29, 2015

Damien & Sartre.

 
Você sabe, não é tarefa fácil amar alguém. É preciso ter uma energia, uma generosidade, uma cegueira... Há até um momento, bem no início, em que é preciso saltar por cima de um precipício, se refletimos, não o fazemos. Sei que nunca mais saltarei (Sartre, A Naúsea).
 

sexta-feira, junho 26, 2015

Clarice Lispector, Água Viva.


Expresso a mim e a ti os meus desejos mais ocultos e consigo com  as palavras uma orgíaca beleza confusa. Estremeço de prazer por  entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal! Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário: sou sozinha, eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo mas sei que não te escandalizas, corri a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis. Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo - cerco-me por plantas  carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico. Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou orgânica - E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria- e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens.