terça-feira, julho 31, 2007

Plim, Plim.

*
Mia Geodésica me indicou ao prêmio Blog Cinco Estrelas.
\o/
Agradecida ao Rafa pelo gesto sincero.

E tô um tanto avexada que é preciso indicar 5 casas, e gosto de tantas gentes.

Regrinhas todas lá, no Nada Pra Mim

Escolho estes aqui ó:

Garatuja (Casa dela que é Girassol pra mim).

Câmera Crônica (Do moço das palavras mais bonitas).

Corra, Gu, Corra (Um chucrute de moço que sou fã - Nem sei se pode ser fotolog. Tento).

Serendipities (Que alma dela dança linda lá, precisa de vê).

Doida de Marluquices (Casa de Airumã).

Gentes que leio faz tempo.

E é difícil isso viu, deixar pessoas de fora.
Todos que partilham comigo do meu espaço são constelações.

beijos na alma.

segunda-feira, julho 23, 2007

Timing


Cafuneava a cabeleira do tempo, meninando as horas.
Toda leveza d'alma enluvada no toque percorria a lisura dos ontens,
escorregando pelos fios dos dias, até abismar lembranças.
O tempo entregue em seu colo lhe adormecia.
Com a outra mão escorava a fronte fatigada,
feito mão de Deus misericordiando idéias,
tudo dentro espreitava em ordem de batalha.
Em mim, campo de guerra... minado.
Fora, o tempo faz ninho em meu colo e canta futuros.
E eu me passarinho.
Principio sonhosas viagens.
Remendo um retalho de sonho no outro, acobertando a pele de esperança.
Quem sabe assim no desvão de mim costuro-me inteira?
O tempo sabedoroso e artimanhoso, que é 'velho e menino', sorri.
Um corpo só se pretende inteiro em amorosos braços...
Pensamento então danou a desbravar caminhos que tinham sina de rio.
Queria desaguar nos teus braços.
E lá encontrar porto.
Meu olhar pousa nos olhos vazios deste dia, sem pestanejar palavra.
Sacralidade de quem diante de sublimosas coisas, infinita-se.
Essa despresença minha é toda tua.
Minha palavra, em minhas ardências, incenso.
Talvez saiba te dizer o vento que é minha querência degustar do teu sorriso,
até que tua alegria seja meu sustento.
*
*
*
Cecília Braga

quinta-feira, julho 05, 2007

In


Como era de costume, padecia de dúvidas ansiosas.
Dos questionamentos tantos que povoavam sua mente, carecia desfrizá-los todos.
Desencaracolar as interrogações e deixar a lisura da certeza exclamar os passos.
Que não ousava dar.
Cansou e descansou os quereres, enrolando o corpo, já sem firmes propósitos, como se desesqueletizasse a vida.
Só um suspirar de ausências povoava as tardes, embaçando a noite. Carecia de lacrialmejar estrelas para alcançar visão.
Por hora, fechava os olhos para se enxergar por dentro.
A noite transpirava exausta de arrastar demasiadas esperas. O céu chorava calores sublimados.
Na pele da manhã orvalhava serenos. À luz do novo dia, ela soluçava agudos nascimentos.
Recém-nascida de si. Amamentava-se.
De tantos apetites que suscitavam as mudanças, começou a gofar vazios. Minusculou-se.
É, pois, toda ilha vista de verticais lonjuras. Ausentava-se.
Vagou o olhar no horizonte, e já percorria com os dedos sua vasta linha, apagando ilusionosos traçados.
Desconhecedora de princípios. E fins. Nela, e para ela, uma coisa gesta a outra. Infinitamente.
Havia graça na maré debochosa, arremeçando na praia antigas-idades e sonhos.
Tudo está insuficientemente enterrado, não importavam tempos e profundidades.
Sofria de paz quando olhava em seus próprios olhos.
Em tudo, ponte para o agora.
Antes e depois, descabia.
É, no agora, uma porção de perguntas cercada de um mar de silêncios. Ilhava-se.
Quis ser inteira em tudo. No mar, diluía-se.
Pôde enfim, ser silêncio de búzios. Sua voz diz de proximidades.
E o mar, tomando-a em si, suscitava reflexões azuis.
Mas seu corpo acariciado de ventos, quis se misturar à areia. Ampulhetava-se.
Só o toque guardado nas mãos dele, faria o tempo parar e disparar e-ternidades.
No gesto que ele ainda não ousou, cabia todas as respostas. E inimaginava como, por ser gesto tão pequeno.
Aceitava os mistérios. Não era mais a criança agostiniana. Não queria fazer o mar caber num buraquinho de areia, carregando-o em balde.
Ela se misturava à areia, queria se igualar à terra, só os solos poderiam guardar a distância dos passos...
Que ela já não sabia se ele desejaria dar.

: -
Cecília Braga

segunda-feira, junho 25, 2007

Para ele, que ainda vai chegar.


Bem que ele podia chegar e desenhar sonhos na minha pele.
É que meu corpo quer ser para ele segurança e liberdade,
Para quê de todos os lugares que ele pudesse estar,
só sentisse pertencer a um,
E ali escolhesse ficar.
Aconchegar o corpo sobre o meu,
só pra partilhar dos sonhos que projetou em mim,
Tão nossos.
E por vezes o tempo parasse, assim:
Meus dedos desenhando caminhos nas tuas costas,
Minhas mãos perdidas no castanho de teus cabelos.
Nossos olhos traríamos fechados,
porque o céu vai acastanhando é dentro,
luz do mel ao sol.
A alma agradecida e agraciada.
Reluz.
Enquanto tua barba-por-fazer ara minha pele,
E tua boca de ventos úmidos e quentes muda a direção dos meus pêlos,
Arraigados em tantos arrepios.
Tua respiração pontua frases, de íntimas levezas, poeirinha de estrela,
que sem caber na voz, acende o olhar.
Das ancestrais sedes que trazes,
meus lábios, fonte.
Tua boca bebendo na minha o frescor da minha linguagem.
Já tão tua.
Os corpos banhados de mar.
Meu olhar se pondo no seu.
A noite pousa suave sobre o céu,
E minha cabeça encontra repouso sobre teu peito.
Aconchegado assim, meu corpo se sabe pleno na circunferência de teu abraço.
Feito reflexo de lua azul no mar,
completudinalidades.
E com as pontas dos dedos ligo os sinais do teu corpo, uns aos outros, descobrindo constelações, batizando estrelas.
É que encontrei o caminho de casa
e não quero me perder nunca mais.
*
*
*
Cecília Braga

sexta-feira, junho 01, 2007

Prece

Que sou pessoa de fé, sabe. Criança que fui aprendeu pouco com sabatina da reza que bisavó minha bem tentava fazer quando raiava o dia ... que cedo logo eu já estava a postos na mesa:
- Bença, vó!
Com mão segura nas mãos dela e beijo de olhos fechados que é assim que se faz quando se tem sentimentos tantos no gesto. Era mão pequena de uma quentchura macia. E de carinhos muitos guardados ali. Mão que minha irmã herdou em igual conteúdo, forma, cor e calor.
-Deus te abençoe, minha filha!
Tudojuntoassim com o melhor-abraço-e-beijo-no-comecinho-dos-cabelos que eu ganhava e dizia:-Tô com fome.
Aí ouvivia o sorriso gostoso de quem bem sabia que sou pessoa que acordo com bastantes fomes. Era um sorrir canto-de-passarinho-amanhecendo-o-dia-ao-sol... amenizava fomes.
Esperava feliz um bucadinho, com olho comprido de quem pede. Ainda tinha a reza com todo mundo na mesa que bisavó minha bem fazia antes e depois de comer que era pra agradecer e pedir por quem tem fomes. E eu tinha pressa sim...proporcional ao apetite e queria era logo chegar no:- enomedopaidofilhodoespiritosantamém!
Ando é atropelando tudo desde pequena...bendita fome! Hoje queria era ter saboreado mais a entrega sincera na oração. Que é coisa que se diz com coração nas palavras e fé muita que é pra palavra pegar impulso e subir.
E meu modo de estar no mundo parece ser similar ao estar na mesa. Valha-me, Minha Nossa Sinhora!Carecendo de mastigar bem de-va-gar...aquelas tantas vezes antes de engolir que é hábito saudável. Reaprendendo, viu. Que sempre é tempo, Graças a Deus!
Estou de-ci-di-da e nem adianta essa manifestação mnemonica de minha bisavó dizendo: - eu tchô! Quando eu dizia que tinha aprendido a reza nova... dessa vez nem vou fugir com qualquer desculpa quando ela disser: -reza aí preu ver.
Vou é saborear tu-di-nho....até dissolver em meu ser cada coisa...e ser parte de mim. E ser plena de encontros.
Hoje eu rezo como vi vezes tantas minha bisavó rezar...numa quietude e silêncio mesmo no executar de suas tarefas, rezando a vida, comungando refeições, conversando como quem entoa um salmo. Ela enchia a casa de sacralidades. Ela mesma era casa...fortaleza e aconchego. Firme e doce. Os quatro elementos cintilando nos olhos. Guerreira.
E carece de ser assim quando sentimento se apodera do peito.
Que é um medo medonho.
Nessa manhã de chuva, -Aumentai a minha fé, Senhor. Em mim mesma.
Que ando desacreditada de minhas intuições.
E Porque faz frio.
E não tenho mais as mãos quentes de minha avó.
¨*¨

Cecília Braga

¨*¨
Prece e apreço meu também pra agradecer a Biel, menino-anjo, que fez casa minha lembrar o mar.

¨*¨

'Ouvindo Moon Over Bourbon Street, do Sting.

Sobre todos aqueles que continuam tentando,
Deus, derrama teu Sol mais luminoso.

Caio Fernando Abreu

O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.Nesse zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima.
Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete? – e outro grunhe em resposta. Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares.
Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto- olha por todos aqueles que queria ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins.
Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio - Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada'.

domingo, maio 20, 2007

Êós - Deusa da manhã

É devaneio, sim.
Tuas mãos surpreendendo meus olhos.
Repousam sobre eles.
Meu olhar de lua cheia, tuas mãos de sol tecendo eclipse.
Passeio minhas mãos sobre as tuas num medo alegre.
Meu dedos envolvendo com força os teus. Aperto.Temo e tremo.
Os anéis de Saturno atravessados na garganta, embargando a voz.
Essa coisa sem pertencimento vagando no estômago feito Plutão.
Minhas mãos afastando de-va-gar as tuas, sem perder a órbita.
Afasto um a um os teus dedos escoando aurora.
Meu olhar perdido no traçado rósea da palma de tua mão, nele o alvor do dia.
É que sonhei com Primaveras.
Mas, aqui dentro um Outono calado.
Um amarelar das coisas antigas. Guardadas.
Fotografia de tempos atrás revelando sonhos realizados somente ali, no castanho dos olhos.
Tão claros, meu Deus.
Ouço ao longe o vento pastoreando nuvens...
Aqui terra seca de tanto verão tem sede.
Da vida e das estações só se alcança compreensão nos seus contrastes.
Shiva dança. Marca no passo o ritmo do tempo.
E no movimento das mãos abre e fecha ciclos.
Chove.
O sol em outro hemisfério. Inverna a alma.
Bem sei apreciar a beleza de cada estação.
Eu só queria caber no seu abraço mesmo quando
o tempo esquenta o corpo, mas só outro corpo aquece a alma.
Na Gênese que toda noite escura prenuncia eu só queria teu hálito fresco de manhã soprando vida nova em minhas narinas.

Da poesia que você trouxe para os meus dias declamo aqui meu último verso.
°
Cecília Braga


quarta-feira, maio 09, 2007

Mare

Só o som da areia bebendo um tanto de mar calmo
e dos passos do vento ondulando a superfície das águas claras,
assanhando o verde, remexendo na areia...
Guardando o canto do mar nos búzios.
Escrevo algodão em papel azul celeste.

Eu só queria teu olhar perdido em minhas palavras,
feito olhar de criança embebido de céu,
deitada no mar, flutuando.
E que o vento te dissesse da suavidade do toque que tenho guardado.
E aguardado...
Meu canto doce posto em envelope,
segura nas mãos como criança que encontra búzio na areia.
Tesouro.
Aproxima dos teus olhos surpresos. Leva junto ao peito.
Coração se faz ouvido.Abre.
Menino encantado escuta sinfonia dizendo de mar...
e dessas imensidões
Minha espera é azul
e o sal não incomoda tanto...
Sei que tuas palavras molhadas hão de me encontrar...
sedenta.
*
*
*
Cecília Braga

quinta-feira, maio 03, 2007

Adámas


Dos dias que a palavra ríspida marcha dentro do peito.
Das coisas que não se digere. Do revirar no estômago.
Do alvoroço dos pensamentos todos.
'Minha pátria é minha Língua'.
Sim, sim. Caetanear a prosa.
Pensamento numa lonjura aperreada.
Território, liberdade, propriedade e coisas que entendem as membranas. Cerca viva.
Corpo cansado dessa atmosfera bélica, de vaidades tolas, de desenhos de giz. Efemericidades que a menor chuva leva vestígios, todos.
E mesmo ao maior sol...
Vai ardendo os dias no passar ligeiro do tempo, pra quem quer demora. Ou no demorar do passo, pra quem tem pressa. Queima tudo. Fica a dúvida. Medonha.Se existiu mesmo. E só. Feito lembrança de pesadelo amargando a boca, depois que acorda.
Encontros forjados. Gentes que planejam, invadem e se apropriam. Sedução Vampiresca. Apois. Daquelas que se diz bem sexy, entre sorrisos, os mais cínicos, quase a cravar os dentes no pescoço arrepiado do tanto querer, e do medo se depois de. Haverá.
: - Lembra do primeiro instante? Diante de sua porta. Teu ser inteiro vibrando na certeza do sim... a casa é sua. Pode entrar.
Ah, meu avô! Como é que o olhar deixa de ser de onça em situação dessa magnitude?! Deixa não. Individualidade é espaço sacro. E tem gentes profanando. Que essa coisa de ser Imagem e Semelhança, é de Criador. de criatura não.
Criatura cabe ser bandeirante no território do próprio ser. Tarefa de vida inteira que se deixa inacabada. Terra vasta. E Santa.
Tá no Eclesiástico: 'Boca fala do que o coração está Cheio'. Acredito sem duvidar vez nenhuma que fosse. Linguagem é simbolismo vivo. Verbo que se faz carne. Palavra de fé removendo montanha. É palavra de profeta construindo futuro. Escrita dizendo da mão de quem escreve. Gesto proferido é desenho ímpar.
Adianta não. Ouro de Tolo enche os olhos de quem tem visão prejudicada. Imagem presa na retina de bailarina linda, sensualidade na dança, vestida do véu de Maya. Olhos em labaredas de ira. Mãos estendidas em gesto de carinho. Fatal.
Abraço de Tamanduá, como diz meu avô. Expressão melhor, haveria não. Gentes assim é espécime em extinção não. Nem às vias de ser extinta. Andam por aí. As pencas.
Das querências do dia, quero é olho de garimpeiro, Senhor.
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Cecília Braga

quarta-feira, abril 25, 2007

En - carnado

Sentimento queimando em meu peito aberto
feito rosa desabotoando ao sol,
Quando os ponteiros se unem para cortar o dia ao meio.
A pele em ebulição alaga os poros.
Água e Sal. Suor. Lágrimas. E mar.
Os pêlos eriçados, cedem.
Como coqueiro que reverencia a majestade do vento.
Dobra-se ao seu querer.
Meu corpo em atividade sismica.
Ab imo Pectore: Ferve.
In: Tudo é magma.
Essas palavras arrebatadas,
Sarsa ardente que queima sem consumir,
Lanço todas sobre o papel...
Só enquanto não posso escrever-escarlate sobre tua pele a minha geologia.
Vem e resfria as palavras no teu toque.
Cristaliza-as... magma frio, rochas ígneas.
Alicerce.
Tua mão na minha, selo...
E a gente feito criança desenhando nossa história nas pedras.
Assim: com a vida em punho.
hieróglifo encarnado.
Rouge.


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Cecília Braga


***...***...***
Ao som de Vitor Ramil ....

Longe de Você


Tô vivendo em outra dimensão
Longe de você
Habitando o fundo de um vulcão
que eu domestiquei
Todo dia deixo o sol entrar
mas a luz não vem
A janela em mim é tão brutal
Causa esse desdém
Meu relógio em outra dimensão
corre de você
Solto o pensamento num tufão
Finjo que bem sei
Todo dia o dia quer passar
mas o fim não vem
A espera é sempre tão brutal
Tudo se mantém
Acredito em outra dimensão
Longe de você
Lava, fogo, cinzas, solidão
Já me acostumei
Todo dia posso te encontrar
mas você não vem
O deserto em volta é tão brutal
Sempre te detém
Sempre te detém
Sempre te detém
Sempre te detém





quarta-feira, abril 18, 2007

Catarse


Aqui é lugar habitado por tua ausência, ar denso de saudade povoando de neblina o vazio. Difícil respirar. Meu choro obstruído no peito. Meus pensamentos insones. E as palavras chorando na ponta do lápis...
A morte petrifica quem vai e imobiliza quem fica. Mesmo quando a razão teve tempo de doutrinar o coração, ressaltando os sinais que se desenham nos gestos, na pele, no olhar, no gemido e no cansaço. Os olhos atestam a vida desistindo.


Coração amiudando no peito, inda mais quando seu corpo enchia meus braços e soluçava a dor de quem se sabe indo sem querer partir.


Ah, minha ... e você nos fazendo sorrir um riso molhado de tantas lágrimas. Brincando com o que mais lhe doía. Transcendendo. Tirando dos menores gestos o fantástico da vida, feito criança. Ainda vejo teus pés brincando na água do banho. Teu sorrir com o corpo inteiro. Teu senso de humor fantástico. Teus olhos vivos e atentos. Tua lucidez.


Era quinta-feira maior mas não haveria a última ceia, o partir o pão e nem o lava pés. E não haverá mais a tua comida na mesa.


Melhor comida não há...


E tinha toda uma distância para percorrer porque teu corpo queria descansar em tua terra, junto aos teus pais. Teu caixão, o cheiro forte de formol, e o moço da funerária me explicando que os vidros abertos...vento na estrada... ía melhorando...E eu olhando pra ele, enquanto colocava o cinto, sem nada dizer, aceitando com olhar. Anestesiada. Queria era recostar a cabeça no banco, deixar meu olhar se perder nas paisagens e lembrar que o movimento da vida é esse: passar. E-ternizando instantes.


O tudo que pensamos materializar: pó.


Re-fazer viagem de tantas anos, evocando lembranças, muitas. Vivas. Latejando no peito. Meu silêncio irrigado, moço vez em quando interrompia...queria saber: idade, o que foi que houve e se era minha mãe. O dia quente. Meus olhos transpirando. Pensamento perdeu as rédeas e ía sertão adentro. Lembrava meu avô, sua mão áspera nas minhas, sua única frase dita entre tantos soluços:- estou chopado, chopado, chopado minha filha. E pedindo pra Senhor do Bonfim conceder a graça dele ir com ela... e tanta dor no meu peito.


Dia se arrastou noite adentro. Lua cheia. Frio de desamparo de quem perde companhia de 56 anos e não haveria e não haverá abraço que aqueça. Frio de corpo sem vida no meio do salão.


Meus olhos pousavam vez em quando nos olhos do meu pai. Olhar mais transparente não há.De um castanho cristalino. Toda dor manifesta.


Sol nascendo. Sexta-feira da Paixão. Mãos dadas, família em prece. Os filhos segurando firme a alça do caixão, mas não o choro.


Estrada de chão. Riachos. Cascalhos. Serras. Verde. Verde. Água correndo no silêncio da mata. Lugar onde teu corpo se re-integra ao todo.


É que ela se foi assim, feito criança que adormece em qualquer canto da casa esperando Pai chegar e carregá-la no colo até a cama.


Adormeceu.


Descansa em paz, minha avó.




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Cecília Braga






..............& EM MEMÓRIA DE LILIAN




Mais que linda: Viva, tensa,confusa. Lilian Lemmertzera meio rainha. E nobre.Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Por que nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano. A morte de alguém conhecido ou/e amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Por que o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.Como amor e morte não se separam – feito quem diz “era uma vez”, conto: na tarde de sábado, estava eu assustadamente dentro do amor (eu não acreditava mais que o amor existisse, e a vida desmentia) quando o telefone tocou. Do outro lado, alguém me deu a notícia da morte de Lilian Lemmertz. E eu também não acreditava mais que a morte existisse, naquele ou neste momento, quando preciso me embriagar um pouco com urgências de vida porque se considerar a cada minuto a possibilidade da morte – então paro imediatamente de viver. Fico de olhos arregalados, imóvel, à espera do poço previsto.Como quem muda um canal de televisão, continuei vivo. Pra rebater a morte, fui ver o show de vida de Elza Soares. E bebi e fumei e conversei e amei mais e mais ainda. Mas dentro de qualquer movimento, a morte de Lilian. E dei pra lembrar de uma única conversa nossa, quando ela fazia Esperando Godot, e fui entrevistá-la. Falamos uma tarde inteira. Ela era mais que linda. Era viva, sarcástica, tensa, confusa. Meio desmedida. E rainha.Lilian era nobre. Eu pensava em atrizes, enumerava: Marília Pera, Fernanda Montenegro. E Lilian Lemmertz, com aquela raça, aquele porte, a boca inesperadamente frágil e amarga, desmentindo o brilho às vezes frio dos olhos. Um certo ar de Jeanne Moreau, e ninguém como ela. Que nem chegou a ter seu grande papel, sua Fedra, sua Petra, Seu Pixote, sua hora de estrela. Brilhante, mas, ao fundo, aquele ar de humanidade despedaçada que Marília também suporta. Ouvir Lilian falando era ficar arrepiado, olhos cheios de lágrimas: o humano excessivo aterroriza e maravilha. Igual à morte e ao amor.Guardo Lilian na memória não como a professora de Lição de Amor, a bêbada de Caixa de Sombras ou a dona-de-casa de Baila Comigo – escolho guardá-la metida na pele de um dos vagabundos de Samuel Beckett. Barriga falsa, suspensórios, calças pelo meio da canela, chapéu-coco. Meio clown, esperando por Godot. Que chegou, afinal. Lilian estava sozinha. Ele a levou consigo. Terá sido frio seu súbito abraço? Quem sabe não.Agora, no fim da noite de domingo, longe do colo morno do amor, a morte visita o apartamento e fico pensando em como recuperar minha imortalidade após este próximo ponto final. Preciso dela, amanhã de manhã. Quando o mundo continuará igual. Só que sem Lilian. E, portanto, um pouco mais feio, um pouco mais sujo. Mais incompreensível, e menos nobre.




Caio Fernando Abreu




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'Sometimes late at night
I lie awake and watch her sleeping

Shes lost in peaceful dreams

So I turn out the lights and lay

there in the dark

And the thought crosses my min

If I never wake up in the morning

Would she ever doubt the way I feel

About her in my heart

If tomorrow never comes

Will she know how much I loved her

Did I try in every way to show her every day

That shes my only one

And if my time on earth were through

And she must face the world without me

Is the love I gave her in the past

Gonna be enough to last

If tomorrow never comes

cause Ive lost loved ones in my life

Who never knew how much I loved them

Now I live with the regret

That my true feelings for them never were revealed

So I made a promise to myself

To say each day how much she means to me

And avoid that circumstance

Where theres no second chance to tell her how I feel

So tell that someone that you loveJust what youre thinking of

If tomorrow never comes´.










sábado, abril 14, 2007

Un(i) - Verso


Minha escrita hoje, devanegari... escrita dos deuses.
Repousa minha mão sobre o peito aberto, auscultando meus suspiros.
Minha caneta de pé, firme, ligeiramente inclinada para frente...reza.
Escolha ritualística das palavras, evocando a sacralidade dos símbolos.
Credo só se professa na ação. Estou me espiritualizando.
Meu escrever é tântrico, instrumento de expansão e desejo latente de te alcançar.
Possibilidade una de te interpenetrar de diversas maneiras.
Teu ser quero Yantra, mapa de experiência transcendente. universo no universo.
Big Bang.
Nosso encontro... sigízio, conjunção do sol com a lua, aqui dentro, maré-viva.
Teu nome repito feito mantra.
Fecho os olhos. Deixo vibrar em mim.
Dhyanas... visualizações.
Linha de divisa, agora é fio dourado.
Estou en-novelando distâncias.
Esse dia, tear.
Toda impossibilidade...urdidura, esses fios paralelos e rígidos por onde meu ser flui, maleável feito trama. Estou tecendo encontro.
Escrita bíblica, tudo que importa se encontra velado. E profética.
Meu escrever é desejo de en-trelaçar as nossas mãos e nossas almas.
*
*
*
Cecília Braga

quarta-feira, abril 04, 2007

OM MANI PADME HUM

Corpo sacralizado no gesto que a alma modelou.
Sem pressa.
Só essa tranquilidade interior é que tem suavizado meus dias. De intensas cores.
Meu corpo cede aos apelos de paz hasteado em meu lençol e se encolhe inteiro, ninho...
Ω
Corpo - vitrine. Alma exposta.
Silêncio reverenciando o milagre da vida, germina. Serenidade de quem se gesta. Corpo que se dobra desejando ser abrigo, proteção...esquece sua fragilidade, pensa ser frágil o que o anima. Mas não é.
O que me dói serena os olhos e orvalha a face. Estou amanhecendo.
Minha alma aspirando o alfa, espaço de re-criação, princípio.
No peito ressoa os desejos...
Minha intensidade evocando o azul.
Descobri que tenho o coração pulsando e-ternidades.

*
*
*
Cecília Braga

domingo, março 25, 2007

Latenza



É só falsa solidez. Coisa que se conserva em tudo aquilo que se consumiu em ardências. Ao menor toque, levemente desmorona em cinzas. Estar entre teus dedos, indica-dor e médio, enquanto me leva à boca brincando de inspirar vazios, não me alivia o peito. E me traga a confiança. Envolta em carências, quis alimentar tua fome.
Em vão.
E quando você lançar minhas cinzas pela janela, eu fantasio vôos e sonhos de liberdade.
Sou alérgica, e tem essa sua compulsão exalando em fumaças. Ar denso. Embora não haja consistência em nenhum lugar. Nem fora de mim. Eu tentando me agarrar. Eu tenho medo. Tens olhos fundos e frios. Cansados de estradas desertas trajando poeira e asfaltos, talvez. E eu querendo te mostrar que bem ali, no terreno das impossibilidades uma flor desabrocha. Rompe. E eu já nem sei se é em meio ao asfalto ou as tuas retinas.
Já não importa.
Tanto.
Alheio. Indiferente. Só lhe interessa contornos e imagens. Ocas. Se há ou não um milagre agonizante em minhas mãos estendidas...
Já não importa.
Os olhos úmidos de desejos. A boca seca. Esse bolo vermelho de angústia pulsando no peito. Tantas mulheres estiveram despidas em teus braços. Quiçá uma estivesse nua.
Esse mundo esquizóide, tanto corpo esquecido do que há dentro. Conta minha alma em prosa e poesia das coisas que passam, desse corpo febril que virará pó, e do teu toque que ao abrir fendas, cria abismos.
E me tira o sono.
Suores gritam verdades líquidas. Vou passar. Mas antes de.
Você bem que podia apagar meu incêndios com tua saliva. Assim, entre as minhas pernas. Já te vejo ensaiar entre idas e vindas. A cena final. Rompendo o silêncio do êxtase, o fechar da porta. E teus passos firmes.
De quem sempre soube onde quer chegar.
*
*
*
Cecília Braga
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Cigarros de Bali

Tirei do bolso um maço e com um estalo de isqueiro acendi um amor
Sou sujeito-simulacro
Meu amor dura apenas o tempo de um cigarro
As cinzas lembranças
Jogo pela janela
Vicio que chega no imperativo
Já porta um futuro implícito:
Queimar um novo amor cigarro
Essa ilusão de frescor no peito vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Arremedo de amor se apaga assim:
Como bituca de cigarro no cinzeiro
Tuas cinzas em meu lençol, o vento leva.
E nada aplaca esse mal-estar sem nome,
Pro que me consome, consumo.
Compulsivamente trago você
Sou pós-moderno, Baby.
Eternamente insatisfeito
Quero queimar um novo amor cigarro
Essa ilusão de frescor no peito vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Cigarro de cravo queima em minha boca
Crava em meus pulmões esse amor
Teu efeito anestésico, eugenol:
Óleo de cravo que inspiro
Ilusão de frescor no peito, vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Carrego no bolso junto ao peito esse vazio,
E toda promessa de gozo e felicidade
Que vi na tv.
Tens fogo?
Há tanta coisa pra queimar...
Acende meu cigarro.
Essa ilusão de frescor no peito vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Mateus Silva e Cecília Braga

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"No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélulas na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenados à ruptura".
Lygia Fagundes Telles

segunda-feira, março 19, 2007

SIM

'Consta na minha janela um mundo que está sempre ali, acontecendo. Existe essa porção bela de vida e insiste em permanecer existindo, para que seja vista. Porque ela está sempre ali. Muitas vezes não a vejo, por descuido ou tarefa banal do dia-a-dia, de costas para a poesia do mundo. Consta no passeio ao parque, tardinha chegando, sol baixando, consta no vento, no céu, nas amizades, no beijo, nos gestos, nas ruas e nos cantos desse mundo. Em toda parte habita a poesia inexplicável da vida. Ela está presente, todos os dias e todas as horas, e felizes são os momentos em que a encontro, de súbito, por inteiro, e ela acerta sempre em cheio. Poesia certeira, eternizada a partir de um brevíssimo e feliz estado de consciência elevado. Que seja eterno, posto que é verdadeiro, e que torne os dias uma coletânea dos sentimentos mais bonitos'.
Tomas Barth
& ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Meia-luz. Sombras tantas fazem saltar aos olhos contornos novos de objetos antigos. Realidade vela-da. Pupilas dilatadas. É noite escura. Dia que se fechou em azul-marinho. E cinzas. Tudo em volta se contraiu, feito bicho assustado.Mas aprendi a continuar andando mesmo quando. Hostilidade desperta. Instinto de bicho acuado. Sentidos arrepiados. E sinto o mundo entrar pelos meus poros. Percorrer-me inteira. Lateja no peito esse grito com-passado. Repetido. Atmosfera de juízo final. Um levantar de medos e memórias mortas. Melhor assim. É dia esperado. Separar o joio que deixei crescer em meio ao trigo. Nesse campo vasto em que cultivo minha vida. Semeio ventos, às vezes. Coisas de sementes, colheita multiplicada. Depois de me re-colher inteira. Sentir a terra fria e úmida sob meu corpo quente, lavado em lágrimas insistentes, coração em marcha. Ordem de batalha. Travada a sós. Triunfo sobre mim mesma. Cansada de me auto-sabotar. In-consciente. O Sol se espreguiça entre nuvens leves. Desabou sobre a Terra o que era peso e possibilidade de vida. No silêncio da semente, o milagre. A vida fresca. O mundo de corpo e cabelos lavados. Secando ao sol. Dourando a pele e os pêlos. Reluz os campos de trigo. E o vento menino brinca. Meu corpo é todo janela. Tenho a alma debruçada à contemplar o mundo. Beleza que embriaga. Tem cheiro de recém-nascido. Sinfonia amarela, jazz-mim. Blues, toque das asas de borboletas. Doce sensualidade. Vontade de e-ternizar instantes. A pleno pulmões o universo canta em uníssono a vida. Explode estrelas, colisão de uni-versos, show de pirotecnia. E eu danço de olhos fechados, sem medo de perder o ritmo ou errar o passo. Porque quando deixo a música da vida vibrar inteira em mim e sinto ter tudo, sem nada ter...( Mãos vazias. Coração que se derr-ama). Quem mergulha solitário no mistério da vida se des-cobre acompanhado de tantas solidões que se abraçam. E abro os olhos. E giro. Dançando e sorrindo. Tenho as mãos cheias de rosas, girassóis e lírios. Giram no ar borboletas azuis e amarelas. Meus pés na grama verde. O sol sacralizando tudo com manto dourado. E vejo gente tanta chegar. Uma a uma. Recebe o que tenho nas mãos...flores. E o meu melhor abraço. Dai-me tua mão. Dança comigo. Declama no olhar a tua poesia sincera. Partilha comigo um instante verdadeiro. Deixa tua marca em minha alma. Quero te re-conhecer mesmo quando o que te anima despir-se desse corpo. Deixa tua pegadas im-pressas na minha história. Trans-forma. Encontro, sim. Dois universos que se tocam...Big Bang.
Re-veste de poesia teu olhar...E de-clama tua vida com todo teu ser.
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Cecília Braga

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Por não estarem distraídos
'Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos'.
Clarice Lispector

terça-feira, março 13, 2007

Briza


Essas horas andam carregadas de vazias esperas...que pesam tanto. Vejo daqui, ao pé da porta, se arrastarem lentas. Só aqui dentro é que tudo insiste em ficar. Eu que sonhei com campos de algodão. Acordo entre mofos. E tenho medo. Casa abandonada, lençóis brancos en-cobrindo o que ficou ... para proteger? para postergar?
O tempo marcado em minha pele morta...é só essa poeira pela casa repleta de tantas falsas impressões. Não há saudade aqui.
Só muitos, eu pensei que. E senti tanto.
Vejo as horas dobrarem a esquina, partindo o dia ao meio. Sem dizer adeus. Arrastando o tempo em chão de cascalho. É tarde. E sangra.
Meus olhos feito ampulheta...escorrem. Choram os segundos desperdiçados. Não os que vivi. Mas estes agora, em que não consigo ir. Tempo começa a go-te-jar lá fora. E decidi abrir as janelas e portas. Não quero ficar seca, jamais.
O céu me olha azul...eu girando em grama verde. Sol enlaçando de-va-gar espessas nuvens . Enrubrecendo-as num abraço. Coisa de quem quer segurar o coração dentro do peito...E tamanho esforço esquenta e avermelha a face...e os olhos transpiram. O dia finda assim, nesse abraço que acende estrelas. É noite clara, repleta de lucidez.
Amanheci pintando de amar-elo essas paredes. Estradinha de chão, pés descalços. Cerca verde e viva. Redes na varanda. Desabrocham em vermelho, rosas. Girassóis. Pé de amora. Cheiro de vida, hortelã, manjericão e canela. Vista para o mar. Fica em campos de algodão. E eu estou indo te buscar, meninamarela. Porque ainda ontem escutei e hoje se faz eco: "solidão é campo vasto que não se deve atravessar sozinho". Hoje eu só quero caminhar contigo.
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Cecília Braga

terça-feira, março 06, 2007

(Ar-de)-dia


Seu olhar dilatado. Em mim. Essa barba desenhando desejos e eriçando os sentidos. Cala frios com a autoridade dos teus sussurros. E Profetiza ardências no calor da tua voz. No meu ouvido. Diz de confianças. E cria um mar de desejos. As minhas rubras ânsias, ainda inflamadas, havia confiado ao azul. Marinho. Mar que acalma. Segredos submersos.
Superfície parece calma mas, centro da Terra ferve.Carne febril, treme. Dos atritos. Dos Calores. Superfície em erupção. Remexida com as marés, onda traz em claro azul realçadas rubras ânsias. Teu toque abrindo fendas, tirando sons sustenidos. Meus átrios e poros se dilatam, arte de sublimar calores em suores.
Deita no meu colo-útero tuas saudades e teu desejo de completude. Tenho a boca úmida salivando fomes. Desfalecida de internas lutas e medievais resistências. Entre minha pele e a tua todas as distâncias foram lançadas, uma a uma, ao chão. Imperativo de nos deixar à vontade. E por capricho dela.
Ah, bem sei. Logo terei que vestir as distâncias. E partir. Reconhecer-me como ser faltoso. Despi o véu de Maya há tempos. Mas ainda fantasio de ilusões duras verdades.
Engana-dor.
E penso que, quando o vulcão cessar e adormecer, talvez eu possa ver, lá no fundo, tua alma entregue. Em sonhos.
Dorme. Minha alma quer se entre-laçar na tua. Encontro tântrico. Se isso acon-tecer....en-fim, uma noite erótica.
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Cecília Braga