domingo, maio 20, 2007

Êós - Deusa da manhã

É devaneio, sim.
Tuas mãos surpreendendo meus olhos.
Repousam sobre eles.
Meu olhar de lua cheia, tuas mãos de sol tecendo eclipse.
Passeio minhas mãos sobre as tuas num medo alegre.
Meu dedos envolvendo com força os teus. Aperto.Temo e tremo.
Os anéis de Saturno atravessados na garganta, embargando a voz.
Essa coisa sem pertencimento vagando no estômago feito Plutão.
Minhas mãos afastando de-va-gar as tuas, sem perder a órbita.
Afasto um a um os teus dedos escoando aurora.
Meu olhar perdido no traçado rósea da palma de tua mão, nele o alvor do dia.
É que sonhei com Primaveras.
Mas, aqui dentro um Outono calado.
Um amarelar das coisas antigas. Guardadas.
Fotografia de tempos atrás revelando sonhos realizados somente ali, no castanho dos olhos.
Tão claros, meu Deus.
Ouço ao longe o vento pastoreando nuvens...
Aqui terra seca de tanto verão tem sede.
Da vida e das estações só se alcança compreensão nos seus contrastes.
Shiva dança. Marca no passo o ritmo do tempo.
E no movimento das mãos abre e fecha ciclos.
Chove.
O sol em outro hemisfério. Inverna a alma.
Bem sei apreciar a beleza de cada estação.
Eu só queria caber no seu abraço mesmo quando
o tempo esquenta o corpo, mas só outro corpo aquece a alma.
Na Gênese que toda noite escura prenuncia eu só queria teu hálito fresco de manhã soprando vida nova em minhas narinas.

Da poesia que você trouxe para os meus dias declamo aqui meu último verso.
°
Cecília Braga


quarta-feira, maio 09, 2007

Mare

Só o som da areia bebendo um tanto de mar calmo
e dos passos do vento ondulando a superfície das águas claras,
assanhando o verde, remexendo na areia...
Guardando o canto do mar nos búzios.
Escrevo algodão em papel azul celeste.

Eu só queria teu olhar perdido em minhas palavras,
feito olhar de criança embebido de céu,
deitada no mar, flutuando.
E que o vento te dissesse da suavidade do toque que tenho guardado.
E aguardado...
Meu canto doce posto em envelope,
segura nas mãos como criança que encontra búzio na areia.
Tesouro.
Aproxima dos teus olhos surpresos. Leva junto ao peito.
Coração se faz ouvido.Abre.
Menino encantado escuta sinfonia dizendo de mar...
e dessas imensidões
Minha espera é azul
e o sal não incomoda tanto...
Sei que tuas palavras molhadas hão de me encontrar...
sedenta.
*
*
*
Cecília Braga

quinta-feira, maio 03, 2007

Adámas


Dos dias que a palavra ríspida marcha dentro do peito.
Das coisas que não se digere. Do revirar no estômago.
Do alvoroço dos pensamentos todos.
'Minha pátria é minha Língua'.
Sim, sim. Caetanear a prosa.
Pensamento numa lonjura aperreada.
Território, liberdade, propriedade e coisas que entendem as membranas. Cerca viva.
Corpo cansado dessa atmosfera bélica, de vaidades tolas, de desenhos de giz. Efemericidades que a menor chuva leva vestígios, todos.
E mesmo ao maior sol...
Vai ardendo os dias no passar ligeiro do tempo, pra quem quer demora. Ou no demorar do passo, pra quem tem pressa. Queima tudo. Fica a dúvida. Medonha.Se existiu mesmo. E só. Feito lembrança de pesadelo amargando a boca, depois que acorda.
Encontros forjados. Gentes que planejam, invadem e se apropriam. Sedução Vampiresca. Apois. Daquelas que se diz bem sexy, entre sorrisos, os mais cínicos, quase a cravar os dentes no pescoço arrepiado do tanto querer, e do medo se depois de. Haverá.
: - Lembra do primeiro instante? Diante de sua porta. Teu ser inteiro vibrando na certeza do sim... a casa é sua. Pode entrar.
Ah, meu avô! Como é que o olhar deixa de ser de onça em situação dessa magnitude?! Deixa não. Individualidade é espaço sacro. E tem gentes profanando. Que essa coisa de ser Imagem e Semelhança, é de Criador. de criatura não.
Criatura cabe ser bandeirante no território do próprio ser. Tarefa de vida inteira que se deixa inacabada. Terra vasta. E Santa.
Tá no Eclesiástico: 'Boca fala do que o coração está Cheio'. Acredito sem duvidar vez nenhuma que fosse. Linguagem é simbolismo vivo. Verbo que se faz carne. Palavra de fé removendo montanha. É palavra de profeta construindo futuro. Escrita dizendo da mão de quem escreve. Gesto proferido é desenho ímpar.
Adianta não. Ouro de Tolo enche os olhos de quem tem visão prejudicada. Imagem presa na retina de bailarina linda, sensualidade na dança, vestida do véu de Maya. Olhos em labaredas de ira. Mãos estendidas em gesto de carinho. Fatal.
Abraço de Tamanduá, como diz meu avô. Expressão melhor, haveria não. Gentes assim é espécime em extinção não. Nem às vias de ser extinta. Andam por aí. As pencas.
Das querências do dia, quero é olho de garimpeiro, Senhor.
*

*

*

Cecília Braga

quarta-feira, abril 25, 2007

En - carnado

Sentimento queimando em meu peito aberto
feito rosa desabotoando ao sol,
Quando os ponteiros se unem para cortar o dia ao meio.
A pele em ebulição alaga os poros.
Água e Sal. Suor. Lágrimas. E mar.
Os pêlos eriçados, cedem.
Como coqueiro que reverencia a majestade do vento.
Dobra-se ao seu querer.
Meu corpo em atividade sismica.
Ab imo Pectore: Ferve.
In: Tudo é magma.
Essas palavras arrebatadas,
Sarsa ardente que queima sem consumir,
Lanço todas sobre o papel...
Só enquanto não posso escrever-escarlate sobre tua pele a minha geologia.
Vem e resfria as palavras no teu toque.
Cristaliza-as... magma frio, rochas ígneas.
Alicerce.
Tua mão na minha, selo...
E a gente feito criança desenhando nossa história nas pedras.
Assim: com a vida em punho.
hieróglifo encarnado.
Rouge.


*
*
*
Cecília Braga


***...***...***
Ao som de Vitor Ramil ....

Longe de Você


Tô vivendo em outra dimensão
Longe de você
Habitando o fundo de um vulcão
que eu domestiquei
Todo dia deixo o sol entrar
mas a luz não vem
A janela em mim é tão brutal
Causa esse desdém
Meu relógio em outra dimensão
corre de você
Solto o pensamento num tufão
Finjo que bem sei
Todo dia o dia quer passar
mas o fim não vem
A espera é sempre tão brutal
Tudo se mantém
Acredito em outra dimensão
Longe de você
Lava, fogo, cinzas, solidão
Já me acostumei
Todo dia posso te encontrar
mas você não vem
O deserto em volta é tão brutal
Sempre te detém
Sempre te detém
Sempre te detém
Sempre te detém





quarta-feira, abril 18, 2007

Catarse


Aqui é lugar habitado por tua ausência, ar denso de saudade povoando de neblina o vazio. Difícil respirar. Meu choro obstruído no peito. Meus pensamentos insones. E as palavras chorando na ponta do lápis...
A morte petrifica quem vai e imobiliza quem fica. Mesmo quando a razão teve tempo de doutrinar o coração, ressaltando os sinais que se desenham nos gestos, na pele, no olhar, no gemido e no cansaço. Os olhos atestam a vida desistindo.


Coração amiudando no peito, inda mais quando seu corpo enchia meus braços e soluçava a dor de quem se sabe indo sem querer partir.


Ah, minha ... e você nos fazendo sorrir um riso molhado de tantas lágrimas. Brincando com o que mais lhe doía. Transcendendo. Tirando dos menores gestos o fantástico da vida, feito criança. Ainda vejo teus pés brincando na água do banho. Teu sorrir com o corpo inteiro. Teu senso de humor fantástico. Teus olhos vivos e atentos. Tua lucidez.


Era quinta-feira maior mas não haveria a última ceia, o partir o pão e nem o lava pés. E não haverá mais a tua comida na mesa.


Melhor comida não há...


E tinha toda uma distância para percorrer porque teu corpo queria descansar em tua terra, junto aos teus pais. Teu caixão, o cheiro forte de formol, e o moço da funerária me explicando que os vidros abertos...vento na estrada... ía melhorando...E eu olhando pra ele, enquanto colocava o cinto, sem nada dizer, aceitando com olhar. Anestesiada. Queria era recostar a cabeça no banco, deixar meu olhar se perder nas paisagens e lembrar que o movimento da vida é esse: passar. E-ternizando instantes.


O tudo que pensamos materializar: pó.


Re-fazer viagem de tantas anos, evocando lembranças, muitas. Vivas. Latejando no peito. Meu silêncio irrigado, moço vez em quando interrompia...queria saber: idade, o que foi que houve e se era minha mãe. O dia quente. Meus olhos transpirando. Pensamento perdeu as rédeas e ía sertão adentro. Lembrava meu avô, sua mão áspera nas minhas, sua única frase dita entre tantos soluços:- estou chopado, chopado, chopado minha filha. E pedindo pra Senhor do Bonfim conceder a graça dele ir com ela... e tanta dor no meu peito.


Dia se arrastou noite adentro. Lua cheia. Frio de desamparo de quem perde companhia de 56 anos e não haveria e não haverá abraço que aqueça. Frio de corpo sem vida no meio do salão.


Meus olhos pousavam vez em quando nos olhos do meu pai. Olhar mais transparente não há.De um castanho cristalino. Toda dor manifesta.


Sol nascendo. Sexta-feira da Paixão. Mãos dadas, família em prece. Os filhos segurando firme a alça do caixão, mas não o choro.


Estrada de chão. Riachos. Cascalhos. Serras. Verde. Verde. Água correndo no silêncio da mata. Lugar onde teu corpo se re-integra ao todo.


É que ela se foi assim, feito criança que adormece em qualquer canto da casa esperando Pai chegar e carregá-la no colo até a cama.


Adormeceu.


Descansa em paz, minha avó.




*

*

*

Cecília Braga






..............& EM MEMÓRIA DE LILIAN




Mais que linda: Viva, tensa,confusa. Lilian Lemmertzera meio rainha. E nobre.Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Por que nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano. A morte de alguém conhecido ou/e amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Por que o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.Como amor e morte não se separam – feito quem diz “era uma vez”, conto: na tarde de sábado, estava eu assustadamente dentro do amor (eu não acreditava mais que o amor existisse, e a vida desmentia) quando o telefone tocou. Do outro lado, alguém me deu a notícia da morte de Lilian Lemmertz. E eu também não acreditava mais que a morte existisse, naquele ou neste momento, quando preciso me embriagar um pouco com urgências de vida porque se considerar a cada minuto a possibilidade da morte – então paro imediatamente de viver. Fico de olhos arregalados, imóvel, à espera do poço previsto.Como quem muda um canal de televisão, continuei vivo. Pra rebater a morte, fui ver o show de vida de Elza Soares. E bebi e fumei e conversei e amei mais e mais ainda. Mas dentro de qualquer movimento, a morte de Lilian. E dei pra lembrar de uma única conversa nossa, quando ela fazia Esperando Godot, e fui entrevistá-la. Falamos uma tarde inteira. Ela era mais que linda. Era viva, sarcástica, tensa, confusa. Meio desmedida. E rainha.Lilian era nobre. Eu pensava em atrizes, enumerava: Marília Pera, Fernanda Montenegro. E Lilian Lemmertz, com aquela raça, aquele porte, a boca inesperadamente frágil e amarga, desmentindo o brilho às vezes frio dos olhos. Um certo ar de Jeanne Moreau, e ninguém como ela. Que nem chegou a ter seu grande papel, sua Fedra, sua Petra, Seu Pixote, sua hora de estrela. Brilhante, mas, ao fundo, aquele ar de humanidade despedaçada que Marília também suporta. Ouvir Lilian falando era ficar arrepiado, olhos cheios de lágrimas: o humano excessivo aterroriza e maravilha. Igual à morte e ao amor.Guardo Lilian na memória não como a professora de Lição de Amor, a bêbada de Caixa de Sombras ou a dona-de-casa de Baila Comigo – escolho guardá-la metida na pele de um dos vagabundos de Samuel Beckett. Barriga falsa, suspensórios, calças pelo meio da canela, chapéu-coco. Meio clown, esperando por Godot. Que chegou, afinal. Lilian estava sozinha. Ele a levou consigo. Terá sido frio seu súbito abraço? Quem sabe não.Agora, no fim da noite de domingo, longe do colo morno do amor, a morte visita o apartamento e fico pensando em como recuperar minha imortalidade após este próximo ponto final. Preciso dela, amanhã de manhã. Quando o mundo continuará igual. Só que sem Lilian. E, portanto, um pouco mais feio, um pouco mais sujo. Mais incompreensível, e menos nobre.




Caio Fernando Abreu




*********************************

'Sometimes late at night
I lie awake and watch her sleeping

Shes lost in peaceful dreams

So I turn out the lights and lay

there in the dark

And the thought crosses my min

If I never wake up in the morning

Would she ever doubt the way I feel

About her in my heart

If tomorrow never comes

Will she know how much I loved her

Did I try in every way to show her every day

That shes my only one

And if my time on earth were through

And she must face the world without me

Is the love I gave her in the past

Gonna be enough to last

If tomorrow never comes

cause Ive lost loved ones in my life

Who never knew how much I loved them

Now I live with the regret

That my true feelings for them never were revealed

So I made a promise to myself

To say each day how much she means to me

And avoid that circumstance

Where theres no second chance to tell her how I feel

So tell that someone that you loveJust what youre thinking of

If tomorrow never comes´.










sábado, abril 14, 2007

Un(i) - Verso


Minha escrita hoje, devanegari... escrita dos deuses.
Repousa minha mão sobre o peito aberto, auscultando meus suspiros.
Minha caneta de pé, firme, ligeiramente inclinada para frente...reza.
Escolha ritualística das palavras, evocando a sacralidade dos símbolos.
Credo só se professa na ação. Estou me espiritualizando.
Meu escrever é tântrico, instrumento de expansão e desejo latente de te alcançar.
Possibilidade una de te interpenetrar de diversas maneiras.
Teu ser quero Yantra, mapa de experiência transcendente. universo no universo.
Big Bang.
Nosso encontro... sigízio, conjunção do sol com a lua, aqui dentro, maré-viva.
Teu nome repito feito mantra.
Fecho os olhos. Deixo vibrar em mim.
Dhyanas... visualizações.
Linha de divisa, agora é fio dourado.
Estou en-novelando distâncias.
Esse dia, tear.
Toda impossibilidade...urdidura, esses fios paralelos e rígidos por onde meu ser flui, maleável feito trama. Estou tecendo encontro.
Escrita bíblica, tudo que importa se encontra velado. E profética.
Meu escrever é desejo de en-trelaçar as nossas mãos e nossas almas.
*
*
*
Cecília Braga

quarta-feira, abril 04, 2007

OM MANI PADME HUM

Corpo sacralizado no gesto que a alma modelou.
Sem pressa.
Só essa tranquilidade interior é que tem suavizado meus dias. De intensas cores.
Meu corpo cede aos apelos de paz hasteado em meu lençol e se encolhe inteiro, ninho...
Ω
Corpo - vitrine. Alma exposta.
Silêncio reverenciando o milagre da vida, germina. Serenidade de quem se gesta. Corpo que se dobra desejando ser abrigo, proteção...esquece sua fragilidade, pensa ser frágil o que o anima. Mas não é.
O que me dói serena os olhos e orvalha a face. Estou amanhecendo.
Minha alma aspirando o alfa, espaço de re-criação, princípio.
No peito ressoa os desejos...
Minha intensidade evocando o azul.
Descobri que tenho o coração pulsando e-ternidades.

*
*
*
Cecília Braga

domingo, março 25, 2007

Latenza



É só falsa solidez. Coisa que se conserva em tudo aquilo que se consumiu em ardências. Ao menor toque, levemente desmorona em cinzas. Estar entre teus dedos, indica-dor e médio, enquanto me leva à boca brincando de inspirar vazios, não me alivia o peito. E me traga a confiança. Envolta em carências, quis alimentar tua fome.
Em vão.
E quando você lançar minhas cinzas pela janela, eu fantasio vôos e sonhos de liberdade.
Sou alérgica, e tem essa sua compulsão exalando em fumaças. Ar denso. Embora não haja consistência em nenhum lugar. Nem fora de mim. Eu tentando me agarrar. Eu tenho medo. Tens olhos fundos e frios. Cansados de estradas desertas trajando poeira e asfaltos, talvez. E eu querendo te mostrar que bem ali, no terreno das impossibilidades uma flor desabrocha. Rompe. E eu já nem sei se é em meio ao asfalto ou as tuas retinas.
Já não importa.
Tanto.
Alheio. Indiferente. Só lhe interessa contornos e imagens. Ocas. Se há ou não um milagre agonizante em minhas mãos estendidas...
Já não importa.
Os olhos úmidos de desejos. A boca seca. Esse bolo vermelho de angústia pulsando no peito. Tantas mulheres estiveram despidas em teus braços. Quiçá uma estivesse nua.
Esse mundo esquizóide, tanto corpo esquecido do que há dentro. Conta minha alma em prosa e poesia das coisas que passam, desse corpo febril que virará pó, e do teu toque que ao abrir fendas, cria abismos.
E me tira o sono.
Suores gritam verdades líquidas. Vou passar. Mas antes de.
Você bem que podia apagar meu incêndios com tua saliva. Assim, entre as minhas pernas. Já te vejo ensaiar entre idas e vindas. A cena final. Rompendo o silêncio do êxtase, o fechar da porta. E teus passos firmes.
De quem sempre soube onde quer chegar.
*
*
*
Cecília Braga
& ......................................................................
Cigarros de Bali

Tirei do bolso um maço e com um estalo de isqueiro acendi um amor
Sou sujeito-simulacro
Meu amor dura apenas o tempo de um cigarro
As cinzas lembranças
Jogo pela janela
Vicio que chega no imperativo
Já porta um futuro implícito:
Queimar um novo amor cigarro
Essa ilusão de frescor no peito vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Arremedo de amor se apaga assim:
Como bituca de cigarro no cinzeiro
Tuas cinzas em meu lençol, o vento leva.
E nada aplaca esse mal-estar sem nome,
Pro que me consome, consumo.
Compulsivamente trago você
Sou pós-moderno, Baby.
Eternamente insatisfeito
Quero queimar um novo amor cigarro
Essa ilusão de frescor no peito vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Cigarro de cravo queima em minha boca
Crava em meus pulmões esse amor
Teu efeito anestésico, eugenol:
Óleo de cravo que inspiro
Ilusão de frescor no peito, vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Carrego no bolso junto ao peito esse vazio,
E toda promessa de gozo e felicidade
Que vi na tv.
Tens fogo?
Há tanta coisa pra queimar...
Acende meu cigarro.
Essa ilusão de frescor no peito vicia.
Mas o vento só leva o que é cinza, não o que queima.
Faz tanto mal eu sei, só mais um.

Mateus Silva e Cecília Braga

;********************************************************************
"No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélulas na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenados à ruptura".
Lygia Fagundes Telles

segunda-feira, março 19, 2007

SIM

'Consta na minha janela um mundo que está sempre ali, acontecendo. Existe essa porção bela de vida e insiste em permanecer existindo, para que seja vista. Porque ela está sempre ali. Muitas vezes não a vejo, por descuido ou tarefa banal do dia-a-dia, de costas para a poesia do mundo. Consta no passeio ao parque, tardinha chegando, sol baixando, consta no vento, no céu, nas amizades, no beijo, nos gestos, nas ruas e nos cantos desse mundo. Em toda parte habita a poesia inexplicável da vida. Ela está presente, todos os dias e todas as horas, e felizes são os momentos em que a encontro, de súbito, por inteiro, e ela acerta sempre em cheio. Poesia certeira, eternizada a partir de um brevíssimo e feliz estado de consciência elevado. Que seja eterno, posto que é verdadeiro, e que torne os dias uma coletânea dos sentimentos mais bonitos'.
Tomas Barth
& ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Meia-luz. Sombras tantas fazem saltar aos olhos contornos novos de objetos antigos. Realidade vela-da. Pupilas dilatadas. É noite escura. Dia que se fechou em azul-marinho. E cinzas. Tudo em volta se contraiu, feito bicho assustado.Mas aprendi a continuar andando mesmo quando. Hostilidade desperta. Instinto de bicho acuado. Sentidos arrepiados. E sinto o mundo entrar pelos meus poros. Percorrer-me inteira. Lateja no peito esse grito com-passado. Repetido. Atmosfera de juízo final. Um levantar de medos e memórias mortas. Melhor assim. É dia esperado. Separar o joio que deixei crescer em meio ao trigo. Nesse campo vasto em que cultivo minha vida. Semeio ventos, às vezes. Coisas de sementes, colheita multiplicada. Depois de me re-colher inteira. Sentir a terra fria e úmida sob meu corpo quente, lavado em lágrimas insistentes, coração em marcha. Ordem de batalha. Travada a sós. Triunfo sobre mim mesma. Cansada de me auto-sabotar. In-consciente. O Sol se espreguiça entre nuvens leves. Desabou sobre a Terra o que era peso e possibilidade de vida. No silêncio da semente, o milagre. A vida fresca. O mundo de corpo e cabelos lavados. Secando ao sol. Dourando a pele e os pêlos. Reluz os campos de trigo. E o vento menino brinca. Meu corpo é todo janela. Tenho a alma debruçada à contemplar o mundo. Beleza que embriaga. Tem cheiro de recém-nascido. Sinfonia amarela, jazz-mim. Blues, toque das asas de borboletas. Doce sensualidade. Vontade de e-ternizar instantes. A pleno pulmões o universo canta em uníssono a vida. Explode estrelas, colisão de uni-versos, show de pirotecnia. E eu danço de olhos fechados, sem medo de perder o ritmo ou errar o passo. Porque quando deixo a música da vida vibrar inteira em mim e sinto ter tudo, sem nada ter...( Mãos vazias. Coração que se derr-ama). Quem mergulha solitário no mistério da vida se des-cobre acompanhado de tantas solidões que se abraçam. E abro os olhos. E giro. Dançando e sorrindo. Tenho as mãos cheias de rosas, girassóis e lírios. Giram no ar borboletas azuis e amarelas. Meus pés na grama verde. O sol sacralizando tudo com manto dourado. E vejo gente tanta chegar. Uma a uma. Recebe o que tenho nas mãos...flores. E o meu melhor abraço. Dai-me tua mão. Dança comigo. Declama no olhar a tua poesia sincera. Partilha comigo um instante verdadeiro. Deixa tua marca em minha alma. Quero te re-conhecer mesmo quando o que te anima despir-se desse corpo. Deixa tua pegadas im-pressas na minha história. Trans-forma. Encontro, sim. Dois universos que se tocam...Big Bang.
Re-veste de poesia teu olhar...E de-clama tua vida com todo teu ser.
*
*
*
Cecília Braga

;**********************************************
Por não estarem distraídos
'Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos'.
Clarice Lispector

terça-feira, março 13, 2007

Briza


Essas horas andam carregadas de vazias esperas...que pesam tanto. Vejo daqui, ao pé da porta, se arrastarem lentas. Só aqui dentro é que tudo insiste em ficar. Eu que sonhei com campos de algodão. Acordo entre mofos. E tenho medo. Casa abandonada, lençóis brancos en-cobrindo o que ficou ... para proteger? para postergar?
O tempo marcado em minha pele morta...é só essa poeira pela casa repleta de tantas falsas impressões. Não há saudade aqui.
Só muitos, eu pensei que. E senti tanto.
Vejo as horas dobrarem a esquina, partindo o dia ao meio. Sem dizer adeus. Arrastando o tempo em chão de cascalho. É tarde. E sangra.
Meus olhos feito ampulheta...escorrem. Choram os segundos desperdiçados. Não os que vivi. Mas estes agora, em que não consigo ir. Tempo começa a go-te-jar lá fora. E decidi abrir as janelas e portas. Não quero ficar seca, jamais.
O céu me olha azul...eu girando em grama verde. Sol enlaçando de-va-gar espessas nuvens . Enrubrecendo-as num abraço. Coisa de quem quer segurar o coração dentro do peito...E tamanho esforço esquenta e avermelha a face...e os olhos transpiram. O dia finda assim, nesse abraço que acende estrelas. É noite clara, repleta de lucidez.
Amanheci pintando de amar-elo essas paredes. Estradinha de chão, pés descalços. Cerca verde e viva. Redes na varanda. Desabrocham em vermelho, rosas. Girassóis. Pé de amora. Cheiro de vida, hortelã, manjericão e canela. Vista para o mar. Fica em campos de algodão. E eu estou indo te buscar, meninamarela. Porque ainda ontem escutei e hoje se faz eco: "solidão é campo vasto que não se deve atravessar sozinho". Hoje eu só quero caminhar contigo.
*
*
*
Cecília Braga

terça-feira, março 06, 2007

(Ar-de)-dia


Seu olhar dilatado. Em mim. Essa barba desenhando desejos e eriçando os sentidos. Cala frios com a autoridade dos teus sussurros. E Profetiza ardências no calor da tua voz. No meu ouvido. Diz de confianças. E cria um mar de desejos. As minhas rubras ânsias, ainda inflamadas, havia confiado ao azul. Marinho. Mar que acalma. Segredos submersos.
Superfície parece calma mas, centro da Terra ferve.Carne febril, treme. Dos atritos. Dos Calores. Superfície em erupção. Remexida com as marés, onda traz em claro azul realçadas rubras ânsias. Teu toque abrindo fendas, tirando sons sustenidos. Meus átrios e poros se dilatam, arte de sublimar calores em suores.
Deita no meu colo-útero tuas saudades e teu desejo de completude. Tenho a boca úmida salivando fomes. Desfalecida de internas lutas e medievais resistências. Entre minha pele e a tua todas as distâncias foram lançadas, uma a uma, ao chão. Imperativo de nos deixar à vontade. E por capricho dela.
Ah, bem sei. Logo terei que vestir as distâncias. E partir. Reconhecer-me como ser faltoso. Despi o véu de Maya há tempos. Mas ainda fantasio de ilusões duras verdades.
Engana-dor.
E penso que, quando o vulcão cessar e adormecer, talvez eu possa ver, lá no fundo, tua alma entregue. Em sonhos.
Dorme. Minha alma quer se entre-laçar na tua. Encontro tântrico. Se isso acon-tecer....en-fim, uma noite erótica.
*
*
*
Cecília Braga

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Girasole



Mania de me debruçar sobre abismos.
De deixar as pupilas dilatarem num silencioso e crescente desespero.
E esse castanho doce que de tanto mel fica apelativo.
O amanhã é só esse pano escuro onde pinto estrelas... ora verdes, de vivas esperanças e tantas outras vermelhas, já cadentes de fantasiadas esperas.
Tudo é tão obscuro quanto o que há de vir. Até esse meu corpo branco exposto ao sol de meio-dia, e que seduzido escorrega abismo abaixo.
Arde. Ferida exposta de quem se lança e ao soprar do vento...queima. E faz frio. Feito corpo que chama, e tem febre.
Se envolver inteira nessa escuridão... buscando ao menos, a ilusão de abraço.
De perto, nada é tão escuro. Nem tão claro.
Amar-elo.
É que nas profundezas abissais havia um campo de girassol. ..
Impregnado em minhas retinas... esse castanho doce, de tanto mel...avelã.
Só saberia agora desejar que: ...
Mas antes do ponto final haveria de salvar o hoje de cada dia que o prece-deria. E assim, por ora-ação, decidiu fazê-lo doce, doce, doce...
d'ocê.
*
*
*
Cecília Braga

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Castelos de Areia



“O amor é agonia e êxtase, liberdade e
prisão, desejo e solidão. É o que nos mantêm inteiros quando a vida nos
despedaça”.

“Apaixonar-se é maravilhoso...Só nos apaixonamos por uma razão, nada no mundo nos faz sentir tão bem...
O amor é campo minado. Basta um passo e nos despedaçamos, juntamos os cacos e, sem pensar damos outro passo. Acho que é da natureza humana. A solidão é tão ruim que preferimos sofrer a ficarmos
sozinhos”.

(Trechos do filme amor aos pedaços – Love & Sex).
Noites e noites tentando em vão encaixotar tantos pensamentos, modo de ser... Um tanto desse excesso do que sou e que ocupa tudo dentro de mim...Consome-me inteira, em banho maria.
Ando tropeçando nesses meus fragmentos enquanto caminho cautelosa, meu ser adentro... Queria retirar tudo, me deixar vazia de mim. Coisa de quem faz mudanças. E me vem inteiro o trecho de Clarice, um alerta de impossibilidade:
"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma".

Fico parada, com as mãos-na-cintura, me olhando inteira...por onde começar a re-forma. Há umas paredes a derrubar, outras a construir...ali mesmo, em volta do coração, é tarefa urgente. Mas ele é claustrofóbico. Ah, mas não gosto de nada com a palavra forma...formalidade, formando. Não sei caber em moldes. Não saberia re-formar.
Essas cores vibrantes me levam sempre a exaustão, mas não gosto do morno dos tons pastéis, nem de casa de cor uni-forme. Gosto de cores quentes e frias. Cansada de tantos humores. Desses dias claros em que tudo se condensa. E céu vai ficando azul-marinho, em dia pleno... noite se faz. Nuvem que gota a gota vai juntando tudo até precipitar-se.
Eu me precipito, me atropelo. Coisas de quem tem os sentidos excitados. E qualquer coisa, já é prenúncio de êxtase. Mas tem coisas que só querem seduzir os sentidos....Endoidecê-los. Tenho os sentidos já cansados de tantas promessas de gozo. Eles querem te perceber inteiro. E eu quero apenas ter o prazer de ser quem sou... em teus braços. Sem precisar me mudar de mim. Apenas ampliar os meus espaços, dilatar meus átrios. E te receber. Eu que nem conheço teus passos, mas te vejo caminhar livre, pés descalços e sem camisa aqui dentro. Eu me des-cobri querendo ser apenas tua morada.
Todo esse meu verso descabido sempre foi pra alcançar você. Com mãos trêmulas, tateando no escuro, na esperança dessa luz dos teus olhos. Nem sei mais o porquê desse discurso torto. Já Fechei a porta. Desejei Boa noite. E sai. Sem levar nada comigo, e sem querer nada de volta. Os braços nus. Quero deixar essa noite fria me doer até os ossos.
Gosto de me doer na mesma proporção em que me dou: inteira. Passos firmes e breves. Quero ir a divagar, desacelerando os pensamentos e essa taquicardia.
O tempo está para majestade. Corta o céu serpentinas de luz. Tantas considerações relampejam. Deixa esse silencio ensurdecedor ser palco, porque quero gritar pra mim mesma coisas que eu já sabia e me calei. Deixa eu sentir cada gota fria de tua indiferença me encharcar inteira, até pesar o corpo e se tornar difícil andar. Um dia este corpo-cadáver nada há de sentir. Por ora, quero sentir tudo. E até lá...meu coração há de fazer terapia, deitar no divã sua claustrofobia. Chega de pulsar assim: vermelho-vivo-vibrante-de-portas-abertas.
Tem gente que chega e leva tudo. Ah, eu sei. Sei conviver com meus vazios. Mas hoje, cansada de meus excessos, eu só queria não estar só.
Cessou tudo. Como tempestade que chega e se dissipa. Contrariando previsões. Tempo quântico, cheio de possibilidades. Só. Uma brisa leve enxuga meu corpo carente de toque que se arrepia. Alma lavada. E já agora, eu nada queria...estou repleta. Tomada por uma absurda compreensão de mim. Essa angústia de existir em teus braços...agora, é só angústia de existir. Existo na medida em que estou sendo. Não há como me definir sem reticências...e quero alguém que me perceba inteira pelos sentidos. Cansei de tanta hipocrisia disfarçada. Dessa gente que me acompanha porque sabe que vivo à la Oswaldo Montenegro e deixo a vida entrar pelo nariz. Conservo os pulmões sempre cheios e quando sopro, por vezes inflo egos. Cheios de si, escapam. Feito balão desejado que criança tem na mão e com lágrimas nos olhos ao menor vento ver partir....Chora até ser tomada por uma profunda alegria. Pessoas foram feitas pra voar. Sorrindo deixa a vida lhe eriçar os sentidos...
É dia com cheiro de mar e vai construir castelos na areia...gosta de lembrar que tudo tende a se dissolver...
Vida inteira feito criança que sabe valer a pena construir castelos na areia, dar corpo ao sonho, persistindo com esperança... e recomeçando sempre. E cada vez mais longe do mar, na tentativa de que nenhuma onda alcance. E com tanto amor, que faz gente grande sentir sua criança outra vez. E por ter estrelas nos olhos, atrai. Gente que chega de mansinho para olhar, gente que passa olhando, sorrindo. Gente que chega para ajudar. E gente que chega pra destruir. Vez em quando consegue. Criança esperneia, chora, faz bico e diz que não quer mais....logo mais quer de novo, sem mágoa. Porque sabe, tudo vai se dissolver... no mar....um dia. E segurando um punhado de areia que lhe escorre pelas mãos, escapando ao sol...sorri assertiva...alguns grãos brilham. E ela quer brilhar. Ser esse grãozinho de ouro pra alguém.
É que a nossa criança tem imperativo em nós, vivemos a fazer colagens... Mas não adianta. Lá está o amor a nos dizer que não estamos inteiros...
E mesmo sabendo que. Quem não quer se dissolver no a-mar e se sentir inteiro, amparado feito criança que encontra consolo e paz em colo de mãe e segurança nos braços fortes do pai?!
*
*
*
Cecília Braga

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar".

Clarice Lispector




quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Ruah

Ensandecida por tanta Lucidez.
Por vezes penso que lucidez é essa ilusão de luz, esses espaços vazios, repletos do branco, propositalmente em destaque.
Jogo de claro-escuro onde cada mancha serve mesmo é para destacar a luz. Céu escuro em noite estrelada.
Sendo assim, os Budistas compreenderam a razão: é tudo ilusão. Jogo. De luz.
Excesso de realidade é só ausência do real e presença forte de sentidos, todos em alerta?! Feito animal eriçado frente ao perigo, todo alerta, todo defesa, todo projeção?!
É que essa imagem deveria evocar a paz que tanto clamo.Às avessas, bem sei, nessas palavras irriquietas.
Entenda, elas só querem plainar de leve sobre o papel, como plumas soltas ao ar... que dançando cedem à gravidade. E pousam. Essa imagem é toda movimento. E essas palavras presas ao papel, ilusão. São Plumas, leves. Segredei ao vento um desejo. Redemoinho. Alçam vôo esse turbilhão de palavras. Não se espante. Le-ve-men-te um anjo recostará em seu peito. Em suas asas, as palavras que sonho dizer, plumas. Nos teus braços a paz e o meu re-pouso. Será assim: doce e lírico, como se uma borboleta azul sossegasse sobre teu peito... segundos e-ternos antes de partir de novo...Já desejando a hora de voltar.
Nessa noite escura de tamanho desamparo, penas tantas enchem minhas mãos, coisas de auto-condenação e auto-comiseração...elevo minhas mãos ao céu na esperança de ver brilhar uma estrela. De Davi. Num sopro, minha prece ...que haja nova vida! E num suspiro de alívio, abro os olhos...penas coloridas dançam no ar...e vão ficando brancas, brancas, brancas e o céu repleto de estrelas...agora eu vejo penas douradas. Ao longe dançam...
Um sorriso me escapa num suspiro...é dourado o cabelo do anjo que dorme em teu peito. Fios dourados que le-ve-men-te dançam enquando você sus.pira. Em meio a tantos sonhos...
Silêncio, aquele instante antes de tudo vir a ser... Ah, será!

*
*
*
Cecília Braga



"Era isso – aquela outra vida inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém mais veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tempo incapazes de ver uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que recomponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome".
Caio Fernando Abreu


Desenho: Tomas Barth.

sábado, fevereiro 03, 2007

(Now)here!

De um pensamento a outro...


Já nem sei mais o que é real. E por vezes é bom não saber.
"A ignorância é a felicidade".
Hoje quero essa felicidade escondida e ignorada das pequenas coisas, de quem sabe ver a beleza mesmo quando ela nos mostra a face mais feia. Quero ignorar a máscara disforme de tanto sentimento torto, de cores gritantes e escuras que você coloca vez em quando. Saber olhar nesses olhos cansados, de brilho tosco, e um tanto petrificado e com todo meu não-saber sentir presença de mar nessas retinas áridas. Quantas eras glaciais em tua vida?! E quem poderia contar? Tem gente que fica tão pouco, por urgência de vida ou convite de morte, que não há como dizer, e nem como calar. Há quem narre uns fatos. Há quem conte um conto. Há quem analise. Há quem fale de si em 3° pessoa do singular, sem singularidades. Haveria ou haverá quem possa apenas viver com, para e por?! E que traga apenas consigo seu ser in-completo, em construção...
E amor pulsando. Feito coração. Só isso basta! Basta sempre e em qualquer estação ou qualquer era.
Pensamento com peso e concretude de realidade...coisa de quem busca apenas a realidade leve e mágica de um sonho. Sonho bom.
É que a menina em mim acordou tão cedo e quer tornar meu dia doce...
Repleto de tua presença...mesmo que hoje eu precise olhar muito além do que vejo para encontrar doçura em ti. E para meu con-solo de mulher, a menina em mim brinca sempre de faz-de-conta.
*
*
*
Cecília Braga






"Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz-de-conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz-de-conta verde cintilante de olhos que vêem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando".

Clarice Lispector

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Tecer é tarefa par. Eu explico. No tear, urdidura e trama se entrelaçam. Assim como quem ama deseja enlaçar não só as mãos, mas as linhas da vida.
Tem gente que se esticaaaaaaaaaa, se dilata inteira no calor do sentimento. Para atingir o tom: afina.
Na urdidura os fios tensos e paralelos, dispostos no tear. Esperando o perpassar trans-versal dos fios da trama. Maleáveis. Tramar é escolher. Tecer a vida.
Penso em quem se estica até os limites da resistência. E já nem sei se é força ou fraqueza. Até onde vai a minha força sem que minha fraqueza venha.... a partir? ou partir? Um pergunta me diz de sua nacionalidade e a outra de sua missão. Sim, missão! Porque há algo de sagrado no romper. E tudo que é sagrado tem força. E já nem sei se a força só existe na negação da fraqueza ou na sua aceitação. É, eu sei... Nem sempre uma coisa exclui a outra.
Tudo isso porque eu já não sei se é sinal de força ou de fraqueza quem sabe dar as mãos mas não sabe entrelaçar as linhas da vida... E continua segurando a mão mesmo quando já não caminham mais de mãos dadas. Explico de novo....
Ím-par.
Ele nada disse. Mas sempre deu a entender....E foi tanta conversa antecedendo o ato... Quando ele segurou em suas mãos, olhou em seus olhos e beijou seus lábios...Ela acreditou no que ele dizia, assim sem nada dizer. E pela intensidade do que ela sentia as coisas tinham outro nome. E bem sabia que o nome dava o significado.
E agora só havia esse silêncio....cheio de palavras vazias. Coisa de quem seguiu o seu próprio caminho e tem medo. E quer manter aquela mão ali...disponível. Mas hoje ela pensa que esse medo é todo dela. Advinhar o nome que cada um dá as coisas é charlatanismo. E essa espera pela palavra salvadora é cinza e fria. Corta. Ela tem medo de perguntar:
- Como você me chama?!
- E se me chama...porque não consigo escutar?!
Ele continua dando a entender coisas que ela não entende. Ela gostaria de ter certeza se a certeza não tivesse nenhuma dúvida.
Confusão é tudo que resta quando tentamos manter todas as possibilidades...sem escolher uma. É que ele tem tanto a fazer....coisas dele sabe, antes de qualquer escolha. No fundo ela sabe que ele na sua não-escolha, já escolheu. Mas é tão fundo e tão escuro que ela ainda não consegue ver. É noite, sabe.
Penso no padroeiro dos cozinheiros... Será que ela é devota de São Lourenço e pensa em viver o exemplo de sua santidade e martírio?! E vai se deixar martirizar assim por essa falta de amor próprio que queima e arde até que possa dizer como São Lourenço: - Vire-me, que já estou bem assado desse lado!
Ah, São Lourenço..... Valei-me que não!!!!
É que o apetite do Amor tem sua urgência e pede a carne crua.
*
*
*
Cecília Braga
(Sobre o que você me pediu para escrever...mas é tudo tão teu, que não sei se soube traduzir).