domingo, março 30, 2008

Compulsão.

Persepolis - De: Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi. A animação foi ainda premiada nos festivais de Cannes, São Paulo e Vancouver.
Into the Wild - Baseado em fatos reais e no livro Into the Wild, uma “biografia” de Christopher McCandless escrita por Jon Krakauer. Direção de Sean Penn.Vale pela direção, pela trama, pela trilha sonora, pela realidade que sustenta o drama. A trilha sonora, composta por Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, seu primeiro álbum solo. Bom por demais.
La Faute à Fidel! - Julie Gavras é filha do cineasta Costa Gavras e dirigiu e roteirizou o belíssimo “A Culpa é do Fidel”. Uma adaptação livre do romance Tutta Colpa di Fidel, da jornalista italiana Domitilla Calamai. De uma uma poesia cotidiana sem igual. Para re-pensar valores, ideias, afetos, a solidariedade, o comportamento de ovelha e a vida. Para aprender com os erros e se transformar. Ainda é tempo, sempre.
The Bucket List - Com: Jack Nicholson e Morgan Freeman. Uma das letras mais fabulosas do John Mayer, que canto feito prece, ainda mais que sou fã: Say.
Le Scaphandre et Le Papillon - Baseado na vida de Jean-Dominique Bauby.
"Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?"
Jean-Dominique Bauby - O escafandro e a borboleta, Livros do Brasil, 1999.
Bauby, + 9 de março de 1997.

Alguns filmes que mexeram na espinha dorsal dos meus significantes. Corre e assiste.


'O olho vê,
a lembrança revê
e a imaginação transvê'.
Manoel de Barros

sábado, março 29, 2008

Aranyani *


Entenda, nunca encontrei nenhum lugar, em mim, que caiba qualquer desconforto. Se visto a roupa mais leve, tiro as sandálias e canto - De profundis - é só por que o pensamento goteja. goteja. goteja. O Entendimento, se sabe, gosta de vias tortuosas. E intravenosas. Deito, e não durmo. Meu corpo parado desconhece o repouso. Duvido de Newton. Não rasgo as vestes. Acho agressivo esse gesto fariseu de demonstrar-se escandalizado. Escrevo, com letras cursivas, as palavras do profeta Oséias na terra molhada: Rasgai os vossos corações e não vossas vestes. Abro mão dos dentes, rasgo com unhas o peito. As palavras ganham mais vida assim: em vermelho escarlate. Acendo fogueiras. Na quadratura do círculo, na circunferência do quadrado. Três. Número cabalísco, criação. Lança de Netuno - aquele que rege o meu ascendente: peixes. Com três dedos: polegar, médio e indicador, a bênção. Santíssima Trindade. Da união de dois, todas as coisas. Verdade ancestral: quando se conta até três, tudo pode acontecer. Não duvido. E danço, em carne viva. Leio na nervura das frases o que tenho plantado. Deixo cair por terra o corpo e a face. Abro os braços para (a)colher. Homem Vitruviano. Mandala. O todo em movimento sem perder o centro. Sinto na pele a terra e suas origens. Arrepio. Um sopro de vida, nova - Ruah. A boca de Deus. Minhas narinas. É preciso não esquecer: ao pó voltarás, só pra fazer significar tudo até quando. Nunca perdi a pressa. Calma aparente, não de todo. Dentro, bem Quintana: 'Em mim, na minha alma, pressinto que vou ter um terremoto'. Mas encontro as docilidades de Deus nas coisas mais banais e tudo serena. Por tanto ansiar, temo. Não é resistência, é bicho ferido. Puro instinto. Se tu me tocar poderá ler em minha pele toda minha história, assim como se lê entre as estrelas os caminhos. Aceito, se me der a mão e caminhar vacilante comigo sobre as linhas de nossas vidas. Equilibrista. Lá em baixo, a teia do destino que o nosso cuidado trançar. Porque destino se faz assim: abre bem a palma da mão, inspira-se no que deseja, e desenha com pirógrafo. Se cair? Aproveita o voo. Ícaro. Se derreter? Melhor. Coloco um brinco de pavão na orelha esquerda.Sabedoria Indígena. Perto do perigo, aves se eriçam. Sei que o outro é sempre um outro. Já me olhei nos olhos até saber quem sou. Não espero completude, só cumplicidade. Aprendi a não esperar, mais. Nem desesperar, tanto.
Entenda, a vida tem me embalado de um jeito tão único que só encontrei meus passos com total entrega. Quando desando, sei bem o que quero...mas não sei se posso. Não quero licença para ser feliz. Não mais. Se preciso for, quero mostrar os dentes pelos meus direitos. E ter a ousadia de erguer a mão direita até a sua nuca. Perdi minha natureza selvagem em algum lugar, já encontro. Por isso as ausências. Mas minhas fomes sempre ditaram o meu ritmo e nenhuma palavra me brota dos dedos se não salivar na boca. Não deve estar longe, pois.Escrevo claro, no escuro. Emolduro um ou dois gemidos. Quando fecho os olhos uma estrela ascende o caminho. Vou, volto diversa. Gosto de velas, ritos antigos, incensos e ervas. Meu solo é místico e meu céu é de Vanilla. Entre o céu e a terra...Bem sabes. Suponho. Tenho as mãos estendidas, vem? E escreve, com a vida, a partitura da minha história.

Cecília Braga
.
* Deusa Hindu: Aranyani, a deusa da floresta.

But what I'm thinking of just this time Why don't you...


Lay your head down, Keren Ann

(in my arms).

domingo, março 02, 2008

How often do you find the right person?

Once.

Vamo assistir, pessoas. Para perder menos tempo com joguinhos. Para vencer o medo. Para dizer o que tiver que ser dito, mas não em outro idioma. Por favor. Chega de tanto tentar salvar nossa pele. Já sabemos, ela alcançará seu fim. Salvemos nossa alma da ruína, desse excesso de gestos comedidos, do medo, da solidão.
Porque fugir é instintivo, e é biologicamente tão mais fácil e provável. Ficar é escolha.
Que haja amor e menos covardia nas nossas escolhas... Senhor, escutai as nossas preces. Amém.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Cadère

Tinha medo de despelar depois do beijo. E de tudo mais que pode acontecer quando se tem o Alasca no estômago de um corpo em chamas. Por isso, prendia a respiração para sonhar. Subterfúgio. Sim, já que é tão difícil acordar com o coração na altura dos ouvidos. E saber que o corpo canta uma fé ancestral, batucandobatucandobatucando em peito aberto. O pensamento dançando em círculos ao-redor-de-um-nome. Flamejante. De tanto crê, um êxtase fechou-lhe os olhos. Ela acredita que o silêncio pode pigmentar os versos. E que uma saudade alonga as pernas das horas. Em vão. O tempo tem suas birras. Então, barganha: dedilha a noite inteira num livro, debruça em seus olhos sua alma que gorjeia para a escuridão passar e treme. Porque sua linguagem guarda cadência de nuvens: quando suspira, ele lhe pode ler. E quando pensa, já está entregue. Nos versos. Aí, engole a seco uma estrela. Só pra ter uma reminiscência luminosa. Ele já pesponta a bainha de todos os seus pensamentos, idos e vindos. Por temor, reza. Por amor, deseja. : Que o sol penetre os recantos da tarde até essa ausência pintar um poente, e em ventre tão celeste o orgasmo do sol respingue as primeiras estrelas. Pra ele chegar. E abrir os braços, inclinar ao céu seus pensamentos, elevar o corpo pelas pontas dos pés, deitar as pálpebras, suspirar, escrever com o corpo extasiado os melhores versos. Enquanto ela retoma o fôlego. Porque certas leituras lhe tiram o ar, e logo depois o sono.

Cecília Braga

terça-feira, janeiro 08, 2008

Cielo

Nem ousava ser Natal. Talvez por isso, e por que uma moça vestia uma paz tão em guerra, eu tenha ancorado meus pensamentos entre o polegar e o indicador da sua mão esquerda.Agora, além dos três lírios, ela tinha nas mãos a minha atenção. Tudo amarelando ali.Pesar de preces antigas nas gavetas do tempo. Recitadas com fé ácida e algumas ânsias.
Meu olhar aportou, só pra de lá perder o rumo. O corpo inteiro apreensivo, num movimento suspenso...o coração atracando. Cada movimento que ela fazia para encontrar a paz, deixava em mim um desespero de guerra.
Ela fincou os demais dedos de sua mão esquerda na areia, como se tudo dentro fosse arrebatador demais e não pudesse se sustentar em si. E por Deus, eu entendia. Era resposta tonta de tanto medo de um pensamento virar impulso, ataque ou defesa. Compreender faz meu coração vibrar em minhas cordas vocais. Porque som de ausências se faz quando o ar falta e a boca se abre sedenta em meio a tanta saliva. Um desassossego ritmado no peito, bate pesado, cheio.Todo oxigênio é só alimento pra saudade. Suspira. Queima. O corpo inteiro. Como se a carne soubesse que é preciso incensar os altares pra alma se apresentar: - oferta.
Lírios. Três. Indicador e polegar se dobram para abraçar três caules inflamados de tanta esperança. Consolo? Três desejos pendentes nas mãos.Branco-gelo. Um desabrochar de medos. Cor do passar do tempo tingindo as flores: amarelo.E ela coloca a mão direita sobre o rubor da face: sol-ardências-vergonhas. A vida despindo os disfarces com as mãos dos instintos.
Caminha até uma onda ameaçar a firmeza dos seus passos. Espera incerta por um momento ímpar. Demasiadamente longo. Haveria de pedir por paciência, mas só haviam três lírios.
Mergulhou os pés e pensamentos.
Muita fé.Um suspiro.Um impulso.Uma entrega. Duas. Três.
E uma grande expectativa.
vai-vem. vai-vem. Tanta fragilidade nos sonhos. Nos lírios. Na vida.Na alma...
vai-vem. vai-vem. Tanta incerteza no movimento das águas. Nas mãos. Na vida. Na alma.
vai-vem. vai-vem. Algumas frustrações despetaladas na areia.
Afasta o corpo, ganha distância nos olhos. Alarga os passos. Pára. Olha de longe como se... tivesse se deixado lá. Um ou dois flamingos alçam vôo no seu estômago, aprendizagem de liberdade. Uma quase-vertigem, de quando tudo falha. Estátua de sal? Pediu com fé: - Por Deus, não!! Colocou os óculos escuros como quem acaba de colocar uma coroa de flores sobre uma lápide fria e vai se afastando de-va-gar, os dedos reconhecendo, no tato, o frio da ausência.
Ela se foi... e ficou. Caminhando dias a fio por meus pensamentos. E eu que nem encontro nas celebrações de ano novo um sentido. Mas, que quero encontrar sempre no instante novo matéria-prima pra criar e re-criar meus sentidos... Encontrei nos gestos daquela moça claridade de lua cheia sob o mar.
Tenho nas mãos três preces prateadas. No coração: tantas luas, São jorges e dragões. O olhar limpo de noite clara... vôos de flamingos no estômago. De quando você me olha e traça, sem saber, no ar, com o clarão do teu sorriso, uma rosa-dos-ventos.E isso me desterritorializa. Mas, já fiz as minhas preces.






Cecília Braga

segunda-feira, novembro 26, 2007

Braile



Tenho os sentimentos acostumados à largura de tuas ancas. Querências me chegam com fartura e calor. Quando alguém planta um olhar no meu, e só sei cultivar com fé e esperança, logo logo vislumbro os frutos. Nutro o que há de melhor em mim...e por vezes, feito hoje, contemplo minha paisagem devastada. Mas, tenho aprendido a fechar os olhos, em meio a multidão, e dançar no meu ritmo, pra mim. Viver me desacomoda.
Nada sobrevive exposto demais ao sol... vai se exaurindo em ardências, exausto...ressequido.

Aprendi a me refazer em teus braços. Em dias assim, ainda me sinto retardar os passos só pra conter o choro. Até te alcançar. Eu só sabia me deixar doer em teus braços. Ía inspirando rápido e profundamente como quem teme o escapar da vida num soluço. Depois, nem temia mais. Soluçava doído. De quando em quando, parece tão impossível continuar a viver. Aí, um desejo de árvore rompe o asfalto.
Deitar no teu colo era pairar os pensamentos. Nos meus cabelos moram a saudade do encanto dos teus dedos. Teu carinho contava histórias... Pra escutar com a pele é preciso fechar os olhos. Dos teus dedos, ouvi:

- Feridas na epiderme da alma deturpam os sentidos.
- O choro é pro coração devastado não conhecer desertos.
- O pensamento fecunda o ar e gesta palavras. O falar tem legitimidade de filho e desejo de vôo.
- Cada palavra ganha significado na boca.
- O tempo vai mudando a palavra por dentro, o amanhecer a cada dia faz seu significado.
- Toda impressão traz muitas digitais.

Uma lágrima com suavidade reaviva na pele teu toque. O que tem de fundo em mim, bem sei, bebi do teu olhar. Hoje, me recolho. Contraio o corpo e perco a pressa. Não quero aguardar mais por quem se demora uma vida inteira em frente ao espelho. Estou em reformas. Mantenho as colunas, derrubo as paredes, me desfaço de tudo. Não gosto de me segurar no que sobrou. Não alimento minhas mendicâncias. Tudo que sobra, ainda assim, é falta.

Gosto das perdas que me tiram tudo. Pra sentar em mim, olhar ao redor, e ficar. Até redescobrir em mim força e possibilidades de recomeçar. Tudo que vivi já me ampliou os vãos de dentro, e tanto, que me sinto tão menor em mim. Mas, com espaços para crescer. Silencio. Tudo que quero dizer está na ponta dos dedos.
Cecília Braga

sexta-feira, novembro 16, 2007

In un Baleno (Num piscar de olhos).





Todo meu descanso é no azul, e só. As minhas pernas se estiram nos horizontes.
Meu andar é na entrelinha, céu-mar.
Por espanto, eu sabia: caminhar é só uma questão de me sentir mais à vontade com meus desequilíbrios.
Prossigo, mesmo sendo corda-bamba.
Vezenquando, uma pomba corta rasante os pensamentos.
Dos deslumbres: as idéias ficam suspensas... Em teima de vôo. Em deleite de mergulho.
Nem um suspiro me aquieta mesmo quando, de tão alto, inalo nuvens.
Tenho esse vento frio na altura do estômago,
coração apertando, o corpo trêmulo... Chuva guardada. Deve ser.
Tem coisas que se pensando, logo concretizam...
O tempo não tardou a se fechar nos olhos,
tanto pensamento de medo, trovejando.O corpo fazendo calafrios.
Dessas coisas que vêm junto com febres. Avisos e alertas.
Chorei logo um mar inteiro. Pra mudar essa paisagem de deserto.
E porque não sei ser aos pouquinhos.
O jeito foi pegar cajado e intimidades de Moisés com Deus, e caminhar mar adentro.
Pra espalmar minhas mãos de angústia no azul. Como quem se ampara, e evita quedas.
(Dos segredos: Deus gosta de engabelar o espaço: Amarra a linha do tempo nos dedos, faz ioiô do sol:
diiiiaaaaaa-noiiiiiteeeee, diiiiiaaaaa-noiiiiiteeeee...).
Aí era tarde, tinha caído já...essa coisa de espaço, só não sabia. Ainda não.Só com o tempo...
Sabendo de mim, ele sorriu. Encostou também sua destra no azul, que de angústia ele bem entende.
Dos fatos: Tínhamos tantas cores de sentimentos nas mãos, misturadas,
que rasuramos melancolicamente o azul. Pintamos um pôr-do-sol...
Das sacralidades.E são tantas.
Deus é menino. E tem todas as idades...Das lições.
Fechei os olhos em prece, só pra ascender por dentro essa noite.
Um mantra desenha o movimento dos ventos. E o cabelos cantam.
Sento entrenuances, ritualisticamente sansei. (como quando algo me revela).
O peito entregue, cede. E sinto o coração estremecer entre joelhos.
(Desses instantes em que os sentimentos nos tiram as firmezas, e a gente se dobra).
E me penso...(por que há dias que quero ser tão outra...logo passa).
Das manias: só sei me dissolver no instante, extática.
Sendo parte, construir possibilidades de me saber inteira.
Das posses: sou dona de todo um desajustamento, muitas instabilidades e de um querer-com-todo-ser.
Das aprendizagens, ou das possibilidades de.
:Querer-colocar-o-outro-na-medida-da-expectativa viola os direitos dos deslimites do ser.
E distancia o amor.
Das dificuldades: pelejar com minhas carências, e suas manias de grandezas.
O tãopouco parece demaisdaconta. E a pessoa aqui, padece. Mingua, por escolha.
Das constatações: essência tem dimensões, em número de 10 (é universo quântico), e intensidades.
De quase todas minhas impossiblidades: acorrentar um gesto, dissimular um querer, sufocar uma palavra,
pôr limites na entrega, viver raso e me fingir feliz.
Do que por si só, não adianta: O atrito de corpos.
Mesmo que tenham a ancestralidade guardada de quem re-descobre o fogo.
É preciso tão mais para me aquecer.
Das entregas: só conheço a que se inflama na fé. Daniel nas labaredas de fogo.
Na boca, o canto...glórias, aleluias, jubilos.
Ameninando medos, lamentações, dores e dissabores.
Só assim as feridas não me lesam. E as cicatrizes me desenham inteira.
Das seduções: as naturalidades.
Das esperas: a sua, porquê ando cansada...
Meu corpo quer se propagar no seu, inscrever meu movimento que é de permanências. Quero dispor da vida que ainda me resta pra te apreender, sem jamais te saber conhecido. Vem, que tenho um universo em mim a ser explorado... e têm me pedido tão pouco, que por vezes esqueço. Deita tua racionalidade nos meus braços, que a música em mim tem ritmo hindu. O tempo se conta no piscar dos olhos, na batida do coração. Vem, que meus olhos nos seus tem duração de presença. E fica. Pra minha poesia ganhar vida em teu corpo.
*
*
*
Cecília Braga


12 meses de.
(De quando as palavras não alcançam).
Dos desejos: todos soprados ao vento...
Das preces: todas que vocês quiserem tecer.
Amém.

 
'é tempo de me fazer, eu sei'.
Caio Fernando Abreu.


sexta-feira, outubro 19, 2007

Aguapé-Assú


Ela minhocava a planta dos pés na areia como quem areja as sustentações das idéias...Um esbocejar de raízes. Tirar um deste-tanto de si, multimorfosear-se pelas ausências. Acrescenando-se de si, nos idos e findos, e em todos os vindos. Bem em prol de finiciar. a si? Vida que dorme no morrer da semente, aguarda o último suspiro, sopro de vida, pra respirar.



Desandou, coitada, com tantas inrespostabilidades. Pois, aquele des-sentir lá no longe, ela teimaniava de apelichamar de Saudade. Maiúsculas letricidades iniciáticas, batismo de cartório, só pra lavrar a propriedade do nome. Danou, então, a deitar distâncias na voz. Botou astúcia de arco nas cordas vocais. Mirou no querer-sem-fim. Diafragma é coxia. Ar montado nos horizontes. Largou. Voz pareia com o vento. E dispara. Pra nunca mais se alcançar.
E ela queria era trazer pra perto, no grito, o que não havia mais.


Deu, nos depois, pra contar as demoras bem miudinho.: - antes do segundo vem o quê?
Queria desatingir-se no anti-tempo. Descontava-se nas somas. Perdia-se. Das agonias do que não chega.
: - mas será o Maledito? Era nada.
Era Nãodito.
Das suspresas no caminho.
Suspirava descontentamentos. : -É vem.
O bafo-de-guardados lhe anunciava...Pois, tantos anteriormentes mofando na boca.
Se não bastasse, ainda tinha esse mormaço das idéias lhe esquentando o juízo, requentando os aperreamentos aflitivos das esperas.
: -É tempo de desterro, só pode.
E nem era.
: -Valei-me, Minha Nossa Senhora.


E não era que ele nunca tendo vindo, e nem ido... não sabia ela, agora, como ele facultava ficar-ir-vir, tudo ao mesmo tempo, sem se filiar ao tempo, mas dele sendo capaz de se engravidar até insandescer ou encaramujar-se?
No silêncio do que não se diz, habitam tantas vozes.
: -Agora foi que deu.
Ela tinha uma voz dentro da negativa da sua.
Resolveu então abrir a boca.
bem bem.
Estendeu a pontinha vermelha e saiu a desenrolar essa angústia vermelha do peito.
Queria lhe fazer desonras, deixar esse sujeito Nãodito passar dos de fora pros de dentro.
Em tapete vermelho.
: -Caminhe.
E ele foi trotando.
:-Deixe estar, nos de dentro é jejum prolongado...Daqueles de quando o corpo já não tendo do que se nutrir, auto-fagia.
: -Nãodito, tu palpitando assim, dos de fora até os de dentro, pega logo é cor e frequência cardíaca. Fa-ta-li-da-de-cer-ta. Nem é agouro. É planejamento estratégico.
Autofágicossassinado, coitado. Morreu Nãodito. Nem a-deus pronunciou. Mas, desgra..dou-se parcialmente. Explico. Confusequiparado foi. Por muito parecer com os músculos cardíacos. Aí, digestão de si acaba é nunca....dá logo nos nervos.
Ficou só um resto imortal de um sem-sentido.Desmembro fantasma.
Doi, por vezes. Um quase nada, agudo.
Dos tempos, ninguém sabe o quanto ela já se descontou.
Toda soma aqui, subtrai.
O tempo dela tava parado lá, antes do zero. E também cá.
Fomes acrescidas de dias negativos... (= ansiedade) ficam logo rechonchudas.
Espaçosamente redondas no peito.
Tudo tudo dando voltas...ela no mesmo lugar.


De súbita prece, ela olhou pra cima. Lá onde todo olho se dirige aflito caçando paz...pra só ter o trabalho de piscar e a paz despencar nos braços, to-da-derretida. Mas, veja só, Paz que nem é besta, só demorada nas quietudes, tá bem meninada nos braços de Deus, em rede tecida de nuvens-ao-sol. O canto da Paz morre nos braços da agonia e ganha tom solene em tempos de guerra. Quem a quer possuir, carece de si ter, primeiramente, até alcançar incompreensões do quanto deve segurar, com afinco, de si e o quanto deve deixar apassarinhar-se e voar, despreendido. E depois deve saber que nem o que segura e o que deixa ir é seu. E ser de si, sem se ter.
Desapegada. Seria capaz?


: -Vixe, vixe. Volta pessoa, volta.
Porque é tudo tão nos interiores invisíveis de dentro dos de dentro... só em atos se professa...o quê? uma credulidade cienfatídica? Uma incredulidade visível de si? Uma credulidade nos invisíveis que ela vê?. : -Cada um, cada coisa. Vai saber.


Coração começou foi a se desaninhar no peito, só pra reclamar da insegurança dessesditamor. Ela desacomodava-se com incomodaquicionices, criadas ou não.
Ela sentia mesmo era saudade desse tempo que desconhecia...de quando as pessoas desusavam band-aid como motivos para inesquecer. Curativelopes, lembresquecedores. Tudo instruído lá no machucado, acobertadamente. O que deve, e até onde. E o que não.


Corpo-tablóide. Burocrontros...Fábricas de jornais. Um passando pelo outro, atrito. Não fosse a desumanidade umedecendo o ar, fogo.
Artíficio.
Estouro de encher páginas.
Vazio pós-Reveillon, no desamanhecer do novo.
:- E eu, que não tenho pudor de intimidades, desfaço o quê dessa alma exposta na superfície de mim, feito vitória-régia?


Leitura de curativos e jornais,
você lê?
: - Issaí, não.
Bem pudera...




*
*
*
Cecília Braga

quinta-feira, setembro 20, 2007

Amar-elo

Ela suspirou.
Queria que a palavra presa no peito deslizasse no papel,
feito sua mão na dele...
Porque seu corpo não conseguia tocar sozinho no êxtase.
E por mais que as vontades todas , premeditadamente, se ericem nas mãos, ela sabia.
Todo extremo abriga a possibilidade de escape e de entrega.
Foi com assombro e júbilo que sua mão encontrou a dele,
E fechou os olhos enquanto entrelaçavam-se os dedos, tecendo uma prece.
Depois abriu. Como quem resiste.
Mas ele foi lhe despindo as palavras até que ela atingisse sua in-civilização.
Agora ela só encontra abrigo no que lhe desestrutura.
Deixa então as mãos dele passear no seu corpo,
Remetendo-lhe ao principio de todas as coisas,
Era como se o universo se originasse ali, naquele encontro.
Assim se fez, pois.
Ela lhe arranhava coloridos neóns,
De tanta poeira intergaláctica abrigada nas suas unhas.
Só para depois enluvar as mãos de nuvens, percorrer as marcas,
E ter um céu todo seu, co-lo-ri-do.
Quando ela disse: - Deix'eu te aprender?

Já era dona de infinitas certezas, ele universo inteiro em expansão.
Mas ela só queria mesmo era ser única moça a habitar naquela estrela feita de grafite azul no lado esquerdo do peito dele.
Disse tudo assim, desexplicado e dumavez. Pois o que ela gostava era de ver a confusão acentuando a intensidade do olhar dele, nela. A tal ponto que sem dizer, consiga lhe interrogar:
- Estrela ?

Sim, sim. Ela tinha essa ansiedade infantil e tudo que queria era contar logo. E contou:

- A estrela que tá guardada aqui ó, nessa aquarela... que vou te desenhar aí, no peito.
É que pensei que podíamos começar pintando nossas paredes...
Só para colorinhecer tudo que nos sustenta e protege.

Tu deixa?

~
Cecília Braga

domingo, setembro 02, 2007

Ao som de ...

Fototropismo

Do desencontro aos seus anteriormentes era tanto remendo de palavras, que descarece de se ter olhar de moça prendada para diagnosticar que sendo tudo feito e posto de demasiados restos e sobras, jamais haveria de se configurar ali um cobertor.
Era um acobertador de vazios, e só.
Para atingir imobilidades se precipitou toda no instante. Sim. Dentro, ela era casa em chamas sem emergenciar saídas.
As coisas eram que lhe ocorriam por dentro numa urgência, um desespero de quase-vida.
Quantas despalavras bocejam o olhar no espreguiçar das retinas?
Todo silêncio petrificado na indiferença dos olhos, medida exata de quebra-mar.
O corpo produzindo mormaços. Cinzas e vermelhos esfumaçam o mundo.
Nos ventaminhos de dentro, silencionava.
Até chegar a esculpir o tempo na beira dos olhos.
Tudo in, brisareiando as vistas.
As pálpebras insandescem para atingir desmaios.
Lágrima pegou as redondezas do mundo, no prenúncio de horas de nascimentos, rompe-lhe a bolsa, chora paz.
Ela es-cor-re.
Arlívido.
Gotejo de azul no só-riso, tão ressecado de ausências.
Tem desgosto e sal na fenda dos lábios.
Tão dentro de si, bebeu o mar.
Se ele sentasse na beira de mim, diante de si, encanto de maré.
Arestou esse incômodo do que não é,
E em fúria de ressaca, fechou-lhe nas mãos.
Ofício de ostra: o estranho em mim, principia pérolas..
Tudo agora é gozo de terra abraçando semente,
Êxtase orgástico de quem aperta em si um outro , já tão seu, como se lhe gerasse.
Tentativa vã de entranhar instantes,
Pois eles me nascem.
~
Cecília Braga

sábado, agosto 04, 2007

~ Azo ~

Pediu a mão da moça.
Afoita, entregou-lhe na palma da mão aberta a vida exposta.
Ele então elipsou com afinco um ponto-final.
Posto assim com redondas certezas na enlinhada vida retratada em sua mão, era planeta fotografado em plena órbita.
Transubstanciada, sentiu a gravidade apegar-lhe aos pés,
transtornada giz, era matéria-prima dos seus descaminhos,
Estrela-cadente rasudourando a noite com seu despedido.
Virou partícula.
Tão deduzida de si, parecia querer habitar o mundo que ele lhe deitou nas mãos.
A visão dele lhe crescia as vistas,
Carecia de lhe acompanhar tamanho,
Agigantado tanto quanto lhe deformava as expectativas, que eram tão dela.
É que ele lhe caminhava.
De agora a partir, só por dentro.
Esforçou-se então, trouxe à boca o nome dele num suspiro.
De parto contrariado quis que ele lhe nascesse feito palavra,
Vislumbrando o mundo pela boca.
Fez, sem pressa, do braço alavanca e levou o mundo à boca,
Porque nunca lhe quis nas mãos, soprou.
Menino-rei em seu planeta azul caneta-bic,
bola de sabão nos braços do vento.
Desapercebida de si, era pozinho de moça.
Atingira os princípios da raça.
A Destra de Deus lhe recriava.

Sorriu.

Na sua alma de criança tudo era também recreação.

*
* *
Cecília Braga

terça-feira, julho 31, 2007

Plim, Plim.

*
Mia Geodésica me indicou ao prêmio Blog Cinco Estrelas.
\o/
Agradecida ao Rafa pelo gesto sincero.

E tô um tanto avexada que é preciso indicar 5 casas, e gosto de tantas gentes.

Regrinhas todas lá, no Nada Pra Mim

Escolho estes aqui ó:

Garatuja (Casa dela que é Girassol pra mim).

Câmera Crônica (Do moço das palavras mais bonitas).

Corra, Gu, Corra (Um chucrute de moço que sou fã - Nem sei se pode ser fotolog. Tento).

Serendipities (Que alma dela dança linda lá, precisa de vê).

Doida de Marluquices (Casa de Airumã).

Gentes que leio faz tempo.

E é difícil isso viu, deixar pessoas de fora.
Todos que partilham comigo do meu espaço são constelações.

beijos na alma.

segunda-feira, julho 23, 2007

Timing


Cafuneava a cabeleira do tempo, meninando as horas.
Toda leveza d'alma enluvada no toque percorria a lisura dos ontens,
escorregando pelos fios dos dias, até abismar lembranças.
O tempo entregue em seu colo lhe adormecia.
Com a outra mão escorava a fronte fatigada,
feito mão de Deus misericordiando idéias,
tudo dentro espreitava em ordem de batalha.
Em mim, campo de guerra... minado.
Fora, o tempo faz ninho em meu colo e canta futuros.
E eu me passarinho.
Principio sonhosas viagens.
Remendo um retalho de sonho no outro, acobertando a pele de esperança.
Quem sabe assim no desvão de mim costuro-me inteira?
O tempo sabedoroso e artimanhoso, que é 'velho e menino', sorri.
Um corpo só se pretende inteiro em amorosos braços...
Pensamento então danou a desbravar caminhos que tinham sina de rio.
Queria desaguar nos teus braços.
E lá encontrar porto.
Meu olhar pousa nos olhos vazios deste dia, sem pestanejar palavra.
Sacralidade de quem diante de sublimosas coisas, infinita-se.
Essa despresença minha é toda tua.
Minha palavra, em minhas ardências, incenso.
Talvez saiba te dizer o vento que é minha querência degustar do teu sorriso,
até que tua alegria seja meu sustento.
*
*
*
Cecília Braga

quinta-feira, julho 05, 2007

In


Como era de costume, padecia de dúvidas ansiosas.
Dos questionamentos tantos que povoavam sua mente, carecia desfrizá-los todos.
Desencaracolar as interrogações e deixar a lisura da certeza exclamar os passos.
Que não ousava dar.
Cansou e descansou os quereres, enrolando o corpo, já sem firmes propósitos, como se desesqueletizasse a vida.
Só um suspirar de ausências povoava as tardes, embaçando a noite. Carecia de lacrialmejar estrelas para alcançar visão.
Por hora, fechava os olhos para se enxergar por dentro.
A noite transpirava exausta de arrastar demasiadas esperas. O céu chorava calores sublimados.
Na pele da manhã orvalhava serenos. À luz do novo dia, ela soluçava agudos nascimentos.
Recém-nascida de si. Amamentava-se.
De tantos apetites que suscitavam as mudanças, começou a gofar vazios. Minusculou-se.
É, pois, toda ilha vista de verticais lonjuras. Ausentava-se.
Vagou o olhar no horizonte, e já percorria com os dedos sua vasta linha, apagando ilusionosos traçados.
Desconhecedora de princípios. E fins. Nela, e para ela, uma coisa gesta a outra. Infinitamente.
Havia graça na maré debochosa, arremeçando na praia antigas-idades e sonhos.
Tudo está insuficientemente enterrado, não importavam tempos e profundidades.
Sofria de paz quando olhava em seus próprios olhos.
Em tudo, ponte para o agora.
Antes e depois, descabia.
É, no agora, uma porção de perguntas cercada de um mar de silêncios. Ilhava-se.
Quis ser inteira em tudo. No mar, diluía-se.
Pôde enfim, ser silêncio de búzios. Sua voz diz de proximidades.
E o mar, tomando-a em si, suscitava reflexões azuis.
Mas seu corpo acariciado de ventos, quis se misturar à areia. Ampulhetava-se.
Só o toque guardado nas mãos dele, faria o tempo parar e disparar e-ternidades.
No gesto que ele ainda não ousou, cabia todas as respostas. E inimaginava como, por ser gesto tão pequeno.
Aceitava os mistérios. Não era mais a criança agostiniana. Não queria fazer o mar caber num buraquinho de areia, carregando-o em balde.
Ela se misturava à areia, queria se igualar à terra, só os solos poderiam guardar a distância dos passos...
Que ela já não sabia se ele desejaria dar.

: -
Cecília Braga

segunda-feira, junho 25, 2007

Para ele, que ainda vai chegar.


Bem que ele podia chegar e desenhar sonhos na minha pele.
É que meu corpo quer ser para ele segurança e liberdade,
Para quê de todos os lugares que ele pudesse estar,
só sentisse pertencer a um,
E ali escolhesse ficar.
Aconchegar o corpo sobre o meu,
só pra partilhar dos sonhos que projetou em mim,
Tão nossos.
E por vezes o tempo parasse, assim:
Meus dedos desenhando caminhos nas tuas costas,
Minhas mãos perdidas no castanho de teus cabelos.
Nossos olhos traríamos fechados,
porque o céu vai acastanhando é dentro,
luz do mel ao sol.
A alma agradecida e agraciada.
Reluz.
Enquanto tua barba-por-fazer ara minha pele,
E tua boca de ventos úmidos e quentes muda a direção dos meus pêlos,
Arraigados em tantos arrepios.
Tua respiração pontua frases, de íntimas levezas, poeirinha de estrela,
que sem caber na voz, acende o olhar.
Das ancestrais sedes que trazes,
meus lábios, fonte.
Tua boca bebendo na minha o frescor da minha linguagem.
Já tão tua.
Os corpos banhados de mar.
Meu olhar se pondo no seu.
A noite pousa suave sobre o céu,
E minha cabeça encontra repouso sobre teu peito.
Aconchegado assim, meu corpo se sabe pleno na circunferência de teu abraço.
Feito reflexo de lua azul no mar,
completudinalidades.
E com as pontas dos dedos ligo os sinais do teu corpo, uns aos outros, descobrindo constelações, batizando estrelas.
É que encontrei o caminho de casa
e não quero me perder nunca mais.
*
*
*
Cecília Braga

sexta-feira, junho 01, 2007

Prece

Que sou pessoa de fé, sabe. Criança que fui aprendeu pouco com sabatina da reza que bisavó minha bem tentava fazer quando raiava o dia ... que cedo logo eu já estava a postos na mesa:
- Bença, vó!
Com mão segura nas mãos dela e beijo de olhos fechados que é assim que se faz quando se tem sentimentos tantos no gesto. Era mão pequena de uma quentchura macia. E de carinhos muitos guardados ali. Mão que minha irmã herdou em igual conteúdo, forma, cor e calor.
-Deus te abençoe, minha filha!
Tudojuntoassim com o melhor-abraço-e-beijo-no-comecinho-dos-cabelos que eu ganhava e dizia:-Tô com fome.
Aí ouvivia o sorriso gostoso de quem bem sabia que sou pessoa que acordo com bastantes fomes. Era um sorrir canto-de-passarinho-amanhecendo-o-dia-ao-sol... amenizava fomes.
Esperava feliz um bucadinho, com olho comprido de quem pede. Ainda tinha a reza com todo mundo na mesa que bisavó minha bem fazia antes e depois de comer que era pra agradecer e pedir por quem tem fomes. E eu tinha pressa sim...proporcional ao apetite e queria era logo chegar no:- enomedopaidofilhodoespiritosantamém!
Ando é atropelando tudo desde pequena...bendita fome! Hoje queria era ter saboreado mais a entrega sincera na oração. Que é coisa que se diz com coração nas palavras e fé muita que é pra palavra pegar impulso e subir.
E meu modo de estar no mundo parece ser similar ao estar na mesa. Valha-me, Minha Nossa Sinhora!Carecendo de mastigar bem de-va-gar...aquelas tantas vezes antes de engolir que é hábito saudável. Reaprendendo, viu. Que sempre é tempo, Graças a Deus!
Estou de-ci-di-da e nem adianta essa manifestação mnemonica de minha bisavó dizendo: - eu tchô! Quando eu dizia que tinha aprendido a reza nova... dessa vez nem vou fugir com qualquer desculpa quando ela disser: -reza aí preu ver.
Vou é saborear tu-di-nho....até dissolver em meu ser cada coisa...e ser parte de mim. E ser plena de encontros.
Hoje eu rezo como vi vezes tantas minha bisavó rezar...numa quietude e silêncio mesmo no executar de suas tarefas, rezando a vida, comungando refeições, conversando como quem entoa um salmo. Ela enchia a casa de sacralidades. Ela mesma era casa...fortaleza e aconchego. Firme e doce. Os quatro elementos cintilando nos olhos. Guerreira.
E carece de ser assim quando sentimento se apodera do peito.
Que é um medo medonho.
Nessa manhã de chuva, -Aumentai a minha fé, Senhor. Em mim mesma.
Que ando desacreditada de minhas intuições.
E Porque faz frio.
E não tenho mais as mãos quentes de minha avó.
¨*¨

Cecília Braga

¨*¨
Prece e apreço meu também pra agradecer a Biel, menino-anjo, que fez casa minha lembrar o mar.

¨*¨

'Ouvindo Moon Over Bourbon Street, do Sting.

Sobre todos aqueles que continuam tentando,
Deus, derrama teu Sol mais luminoso.

Caio Fernando Abreu

O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.Nesse zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima.
Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete? – e outro grunhe em resposta. Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares.
Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto- olha por todos aqueles que queria ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins.
Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio - Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada'.

domingo, maio 20, 2007

Êós - Deusa da manhã

É devaneio, sim.
Tuas mãos surpreendendo meus olhos.
Repousam sobre eles.
Meu olhar de lua cheia, tuas mãos de sol tecendo eclipse.
Passeio minhas mãos sobre as tuas num medo alegre.
Meu dedos envolvendo com força os teus. Aperto.Temo e tremo.
Os anéis de Saturno atravessados na garganta, embargando a voz.
Essa coisa sem pertencimento vagando no estômago feito Plutão.
Minhas mãos afastando de-va-gar as tuas, sem perder a órbita.
Afasto um a um os teus dedos escoando aurora.
Meu olhar perdido no traçado rósea da palma de tua mão, nele o alvor do dia.
É que sonhei com Primaveras.
Mas, aqui dentro um Outono calado.
Um amarelar das coisas antigas. Guardadas.
Fotografia de tempos atrás revelando sonhos realizados somente ali, no castanho dos olhos.
Tão claros, meu Deus.
Ouço ao longe o vento pastoreando nuvens...
Aqui terra seca de tanto verão tem sede.
Da vida e das estações só se alcança compreensão nos seus contrastes.
Shiva dança. Marca no passo o ritmo do tempo.
E no movimento das mãos abre e fecha ciclos.
Chove.
O sol em outro hemisfério. Inverna a alma.
Bem sei apreciar a beleza de cada estação.
Eu só queria caber no seu abraço mesmo quando
o tempo esquenta o corpo, mas só outro corpo aquece a alma.
Na Gênese que toda noite escura prenuncia eu só queria teu hálito fresco de manhã soprando vida nova em minhas narinas.

Da poesia que você trouxe para os meus dias declamo aqui meu último verso.
°
Cecília Braga


quarta-feira, maio 09, 2007

Mare

Só o som da areia bebendo um tanto de mar calmo
e dos passos do vento ondulando a superfície das águas claras,
assanhando o verde, remexendo na areia...
Guardando o canto do mar nos búzios.
Escrevo algodão em papel azul celeste.

Eu só queria teu olhar perdido em minhas palavras,
feito olhar de criança embebido de céu,
deitada no mar, flutuando.
E que o vento te dissesse da suavidade do toque que tenho guardado.
E aguardado...
Meu canto doce posto em envelope,
segura nas mãos como criança que encontra búzio na areia.
Tesouro.
Aproxima dos teus olhos surpresos. Leva junto ao peito.
Coração se faz ouvido.Abre.
Menino encantado escuta sinfonia dizendo de mar...
e dessas imensidões
Minha espera é azul
e o sal não incomoda tanto...
Sei que tuas palavras molhadas hão de me encontrar...
sedenta.
*
*
*
Cecília Braga