
Tenho os sentimentos acostumados à largura de tuas ancas. Querências me chegam com fartura e calor. Quando alguém planta um olhar no meu, e só sei cultivar com fé e esperança, logo logo vislumbro os frutos. Nutro o que há de melhor em mim...e por vezes, feito hoje, contemplo minha paisagem devastada. Mas, tenho aprendido a fechar os olhos, em meio a multidão, e dançar no meu ritmo, pra mim. Viver me desacomoda.
Nada sobrevive exposto demais ao sol... vai se exaurindo em ardências, exausto...ressequido. Aprendi a me refazer em teus braços. Em dias assim, ainda me sinto retardar os passos só pra conter o choro. Até te alcançar. Eu só sabia me deixar doer em teus braços. Ía inspirando rápido e profundamente como quem teme o escapar da vida num soluço. Depois, nem temia mais. Soluçava doído. De quando em quando, parece tão impossível continuar a viver. Aí, um desejo de árvore rompe o asfalto.
Deitar no teu colo era pairar os pensamentos. Nos meus cabelos moram a saudade do encanto dos teus dedos. Teu carinho contava histórias... Pra escutar com a pele é preciso fechar os olhos. Dos teus dedos, ouvi:
- Feridas na epiderme da alma deturpam os sentidos.
- O choro é pro coração devastado não conhecer desertos.
- O pensamento fecunda o ar e gesta palavras. O falar tem legitimidade de filho e desejo de vôo.
- Cada palavra ganha significado na boca.
- O tempo vai mudando a palavra por dentro, o amanhecer a cada dia faz seu significado.
- Toda impressão traz muitas digitais.
Uma lágrima com suavidade reaviva na pele teu toque. O que tem de fundo em mim, bem sei, bebi do teu olhar. Hoje, me recolho. Contraio o corpo e perco a pressa. Não quero aguardar mais por quem se demora uma vida inteira em frente ao espelho. Estou em reformas. Mantenho as colunas, derrubo as paredes, me desfaço de tudo. Não gosto de me segurar no que sobrou. Não alimento minhas mendicâncias. Tudo que sobra, ainda assim, é falta.
Gosto das perdas que me tiram tudo. Pra sentar em mim, olhar ao redor, e ficar. Até redescobrir em mim força e possibilidades de recomeçar. Tudo que vivi já me ampliou os vãos de dentro, e tanto, que me sinto tão menor em mim. Mas, com espaços para crescer. Silencio. Tudo que quero dizer está na ponta dos dedos.
Cecília Braga