Tinha medo de despelar depois do beijo. E de tudo mais que pode acontecer quando se tem o Alasca no estômago de um corpo em chamas. Por isso, prendia a respiração para sonhar. Subterfúgio. Sim, já que é tão difícil acordar com o coração na altura dos ouvidos. E saber que o corpo canta uma fé ancestral, batucandobatucandobatucando em peito aberto. O pensamento dançando em círculos ao-redor-de-um-nome. Flamejante. De tanto crê, um êxtase fechou-lhe os olhos. Ela acredita que o silêncio pode pigmentar os versos. E que uma saudade alonga as pernas das horas. Em vão. O tempo tem suas birras. Então, barganha: dedilha a noite inteira num livro, debruça em seus olhos sua alma que gorjeia para a escuridão passar e treme. Porque sua linguagem guarda cadência de nuvens: quando suspira, ele lhe pode ler. E quando pensa, já está entregue. Nos versos. Aí, engole a seco uma estrela. Só pra ter uma reminiscência luminosa. Ele já pesponta a bainha de todos os seus pensamentos, idos e vindos. Por temor, reza. Por amor, deseja. : Que o sol penetre os recantos da tarde até essa ausência pintar um poente, e em ventre tão celeste o orgasmo do sol respingue as primeiras estrelas. Pra ele chegar. E abrir os braços, inclinar ao céu seus pensamentos, elevar o corpo pelas pontas dos pés, deitar as pálpebras, suspirar, escrever com o corpo extasiado os melhores versos. Enquanto ela retoma o fôlego. Porque certas leituras lhe tiram o ar, e logo depois o sono.
Estas estórias falam desse território onde nos vamos refazendo, molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada. Desse território onde todo homem é igual, assim: fingindo que está, sonhando que vai, inventando que volta.
Still Illumination
Clarice Lispector
'Por mais intransmissível que fossem os humanos, eles sempre tentavam se comunicar através de gestos, de gaguejos, de palavras malditas e mal ditas'.
Aquarius
Manoel de Barros
'Saber o que tem da pessoa na máscara é que são'.
"Para mim que, de todas as minhas andanças, [nada aqui vos trago,
É muito mais honroso o silêncio de Deus". Mário Quintana
Bocó
"Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com águas. Bocó é aquele que fala sempre com um sotaque de suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver belezas nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas".
Manoel de Barros
"Me pergunto se alguém os amaria assim, tão nús. Não sei responder".
"Por só acreditar que com meus passos incertos eu governo a manhã". Manoel de Barros
Zona Hermética
De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos; Uma remembrança de mil novecentos e onze; Um rosto de moça cuspido num capim de borco; Um cheiro de magnólias secas. O poeta procura compor esse inconsútil jorro; Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo reluz com sua obra. Que aconteceu? Isto: O Homem não se desvendou, nem foi atingido: Na zona onde repousa em limos Aquele rosto cuspido e aquele Seco perfume de magnólias, Fez-se um silêncio branco... E aquele Que não morou nunca em seus próprios abismos Nem andou em promiscuidade com seus fantasmas Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Manoel de Barros
"Me explica por que que um olhar de piedade cravado na condição humana...
não brilha mais que anúncio luminoso?". Manoel de Barros
"Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer. O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer.
- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge. - A pessoa ou a coisa? - As duas".