sábado, março 29, 2008

Aranyani *


Entenda, nunca encontrei nenhum lugar, em mim, que caiba qualquer desconforto. Se visto a roupa mais leve, tiro as sandálias e canto - De profundis - é só por que o pensamento goteja. goteja. goteja. O Entendimento, se sabe, gosta de vias tortuosas. E intravenosas. Deito, e não durmo. Meu corpo parado desconhece o repouso. Duvido de Newton. Não rasgo as vestes. Acho agressivo esse gesto fariseu de demonstrar-se escandalizado. Escrevo, com letras cursivas, as palavras do profeta Oséias na terra molhada: Rasgai os vossos corações e não vossas vestes. Abro mão dos dentes, rasgo com unhas o peito. As palavras ganham mais vida assim: em vermelho escarlate. Acendo fogueiras. Na quadratura do círculo, na circunferência do quadrado. Três. Número cabalísco, criação. Lança de Netuno - aquele que rege o meu ascendente: peixes. Com três dedos: polegar, médio e indicador, a bênção. Santíssima Trindade. Da união de dois, todas as coisas. Verdade ancestral: quando se conta até três, tudo pode acontecer. Não duvido. E danço, em carne viva. Leio na nervura das frases o que tenho plantado. Deixo cair por terra o corpo e a face. Abro os braços para (a)colher. Homem Vitruviano. Mandala. O todo em movimento sem perder o centro. Sinto na pele a terra e suas origens. Arrepio. Um sopro de vida, nova - Ruah. A boca de Deus. Minhas narinas. É preciso não esquecer: ao pó voltarás, só pra fazer significar tudo até quando. Nunca perdi a pressa. Calma aparente, não de todo. Dentro, bem Quintana: 'Em mim, na minha alma, pressinto que vou ter um terremoto'. Mas encontro as docilidades de Deus nas coisas mais banais e tudo serena. Por tanto ansiar, temo. Não é resistência, é bicho ferido. Puro instinto. Se tu me tocar poderá ler em minha pele toda minha história, assim como se lê entre as estrelas os caminhos. Aceito, se me der a mão e caminhar vacilante comigo sobre as linhas de nossas vidas. Equilibrista. Lá em baixo, a teia do destino que o nosso cuidado trançar. Porque destino se faz assim: abre bem a palma da mão, inspira-se no que deseja, e desenha com pirógrafo. Se cair? Aproveita o voo. Ícaro. Se derreter? Melhor. Coloco um brinco de pavão na orelha esquerda.Sabedoria Indígena. Perto do perigo, aves se eriçam. Sei que o outro é sempre um outro. Já me olhei nos olhos até saber quem sou. Não espero completude, só cumplicidade. Aprendi a não esperar, mais. Nem desesperar, tanto.
Entenda, a vida tem me embalado de um jeito tão único que só encontrei meus passos com total entrega. Quando desando, sei bem o que quero...mas não sei se posso. Não quero licença para ser feliz. Não mais. Se preciso for, quero mostrar os dentes pelos meus direitos. E ter a ousadia de erguer a mão direita até a sua nuca. Perdi minha natureza selvagem em algum lugar, já encontro. Por isso as ausências. Mas minhas fomes sempre ditaram o meu ritmo e nenhuma palavra me brota dos dedos se não salivar na boca. Não deve estar longe, pois.Escrevo claro, no escuro. Emolduro um ou dois gemidos. Quando fecho os olhos uma estrela ascende o caminho. Vou, volto diversa. Gosto de velas, ritos antigos, incensos e ervas. Meu solo é místico e meu céu é de Vanilla. Entre o céu e a terra...Bem sabes. Suponho. Tenho as mãos estendidas, vem? E escreve, com a vida, a partitura da minha história.

Cecília Braga
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* Deusa Hindu: Aranyani, a deusa da floresta.

5 comentários:

Juliana Caribé disse...

Cecília, "minha" doce-menina.
Estou encantada e estarrecida com esse texto. Encantada porque essas letras em vermelho escarlate são fortes e entram e tocam bem fundo em mim. Estarrecida porque vi, e talvez seja apenas pretensão minha, a mim nas suas linhas. Inclusive, alguns textos. Intertextualidade intensa foi o que aconteceu aqui.
Você, em alguns momentos, me descreveu inteiramente, mesmo sem saber. E eu me sinto completamente honrada por ter o privilégio de ler você.

Obrigada.

*Deserto é lugar de encontro... De você com você mesma. Torço daqui. E, mesmo com toda a distância, te dou o meu melhor abraço.

Amo você! (sem nenhuma demagogia!)

Beijos.

Briza disse...

eu sempre fico
=O

Narradora disse...

O texto � intenso e belo, adorei quando vc diz:"nenhuma palavra me brota dos dedos se n�o salivar na boca".
Inteligente n�o buscar completude no outro.
Bjs
Ps:Obrigada pela visita e pelas palavras.

Camilinha disse...

"Entenda, a vida tem me embalado de um jeito tão único que só encontrei meus passos com total entrega."

Cara Cecília... que audácia se esconder desta forma quando teus significantes e significados gritam e gritam... Faz um favor? Não nos abandone nunca...rs

beijos daqui...

Rafael disse...

Ce, que coisa linda esse seu texto. Tão místico e ritualista, e de repente, um Mário Quintana (é ele?), e, como eu sempre digo, uma riqueza de símbolos. Parece que você colhe de todos os cantos tudo o que encerre em si uma significação própria, e vai misturando e mexendo e vê no que dá: e dá essa força toda. Esse espírito escancarado e grafado.
Adoro vir aqui.
Super beijo e até a próxima.