sexta-feira, julho 11, 2008

Kaos


Nas coisas, o cuidado acentuado do tempo. Carícia de quem sem nunca partir, desusava ficar. Se ela espalma com ardor e pesar os dias, essas lixas em tons tão outonais, na poeira que acentou São Jorge , o Dragão , e três gotas de orvalho, é só para reler nos escombros os vestígios de quem foi sem ter sido. E se busca lugar numa cadeira de ferro verde ferida a ponto de cicatrizar em ferrugens é para se arrastar em terra seca ao capricho do vento no desejo de lugar oportuno para deitar as sementes que ninguém quis plantar. E, depois, sentar escassa. Com o corpo devastado por tantos imperativos, arado por interrogações. Esconder nas chagas uma orquídea branca. Regar com serenos os lençóis, e deixar desabrochar nas mãos algumas estrelas. Irrigar com raios de sol esse azul fundo de mar onde se planta pensamentos obscuros. E escavar com os olhos a arqueologia de seu futuro póstumo, para sentir as estranhas germinarem em verdes e vermelhos, semente , vida. E se erguer, flor-de-lótus, estrela rasgando o véu da escuridão.
Cecília Braga

2 comentários:

Juliana Caribé disse...

Será que um dia vai acontecer comigo?
Flor, não fique triste com meu sumiço, eu estava com medo. Me tranquei e não mandei o endereço porque precisava enfrentar alguns fantasmas, mandá-los embora, porque eles não estavam me deixando viver. Mas tô aqui, viva ainda, e com vontade de renascer que nem você escreveu aí.
Te mando e-mail com notícias depois.

Beijos.

Narradora disse...

Muito bonito. O texto vem num crescente de ler de um fôlego só. Que renasça "rasgando o véu da escuridão".
Bjs