quarta-feira, junho 30, 2010

Caramujo-Flor, retirado de um poema do livro Arranjos para Assobio (1982)

Caramujo Flor from Pólofilme on Vimeo.

Filme de Joel Pizzini, inspirado no livro Gramática Expositiva do Chão (1969) de Manoel de Barros. Apresentado no final da década de 80 e definido por seu diretor como “um projeto estético inacabado, rascunho de sonho, veia aberta, jorro incessante, trecho impresso da utopia”.

Manoel declarou: “Estou certo de que Joel quis falar de minha poesia antes de mim. O filme quis expressar por imagem uma escrita poética. Joel quis dar uma idéia de minha linguagem e não de minha vida. Minha vida não tem nada com jacarés nos trilhos de uma estação, mas a minha linguagem tem. Um jacaré sobre trilhos é tão insólito como renovar as mesmices. Penso que Joel quis mostrar isso. Botou as lesmas lentas e gosmosas dentro de uma casa, mas o lugar das lesmas lentas e gosmosas é subindo pelo muros leprosos das casas. O filme tem muito de minha arte e nada de minha vida. Ainda bem.”

Erik Satie embala a citação final do filme e a palavra ganha aragem.

*
*
*
A rosa reteve Pedro. E a mão reteve a música como paisagem de água na retina.
Era noite no Bairro do Flamengo. As pensões de estudantes dormiam nas transversais.
Pedro mergulhado em trevas, no quarto, pensa no rouxinol e na bomba atômica.
As coisas mais importantes lhe aconteciam no escuro, como a surpresa de uma flor desabrochada à noite.
Pedro recebe uma brisa no rosto e se olha, inundado de solidão. Se chorasse poderia dormir depois. Prefere andar.
Pedro carrega a beleza como um prédio em ruínas. Desce as escadas e ganha a rua.
Pedro anda tendo temores esquisitos. Por exemplo: que desapareçam os fracos da face da terra e restem apenas pessoas blindadas de sol.
Teme que desapareçam as criaturas roladas dos abismos de Deus, com seus andrajos, com as suas cicatrizes.
(...)
Tudo que há de noturno está entranahdo nas roupas de Pedro. Bebe goles de treva. Liberdade de que evola de ti, no escuro, Pedro! Não percebe.
Cogumelos brotavam de seu ventre, e ocasos. Calangos vinham lamber os seus pés e mascar suas roupas os bois.
Pedro de aproximara das coisas. Para dormir com elas.
(...)
Pedro era um abrro ofegante. Como um fruto peco, deixou sua boca no chã, imóvel, aberta.
Tinha de recostá-la na terra e haurir, das raízes intumecidas, seiva.
Pedro sabia: todo aquele que não bebe água no solo, secará como cana cortada no pé. Ficou deitado.
(...)
Pedro era reconstruído.
Agora Pedro ressurge. vem botando o pescoço para o sol. Despegando-se da escuridão, pesadamente, como um bêbado gordo, e aos pedaços, estraçalhado...
Pedro vem tateando na luz, subindo nas bordas do poço, soltando  de suas casca o moliço...Deixa pedaços dele no escuro.
Pedro entra em seu quarto. Está perfeito e pobre. Poderemos sequer fazer uma ideia de que resultará do encontro de um homem com o nojo?
Agora Pedro está dormindo.

 Manoel de Barros, Encontro de Pedro com o Nojo.

Um comentário:

vanessa leonardi disse...

.

Delicadezas!

deixo beijos nas pontas dos dedos, todos os dez

=)

.