segunda-feira, março 19, 2007

SIM

'Consta na minha janela um mundo que está sempre ali, acontecendo. Existe essa porção bela de vida e insiste em permanecer existindo, para que seja vista. Porque ela está sempre ali. Muitas vezes não a vejo, por descuido ou tarefa banal do dia-a-dia, de costas para a poesia do mundo. Consta no passeio ao parque, tardinha chegando, sol baixando, consta no vento, no céu, nas amizades, no beijo, nos gestos, nas ruas e nos cantos desse mundo. Em toda parte habita a poesia inexplicável da vida. Ela está presente, todos os dias e todas as horas, e felizes são os momentos em que a encontro, de súbito, por inteiro, e ela acerta sempre em cheio. Poesia certeira, eternizada a partir de um brevíssimo e feliz estado de consciência elevado. Que seja eterno, posto que é verdadeiro, e que torne os dias uma coletânea dos sentimentos mais bonitos'.
Tomas Barth
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Meia-luz. Sombras tantas fazem saltar aos olhos contornos novos de objetos antigos. Realidade vela-da. Pupilas dilatadas. É noite escura. Dia que se fechou em azul-marinho. E cinzas. Tudo em volta se contraiu, feito bicho assustado.Mas aprendi a continuar andando mesmo quando. Hostilidade desperta. Instinto de bicho acuado. Sentidos arrepiados. E sinto o mundo entrar pelos meus poros. Percorrer-me inteira. Lateja no peito esse grito com-passado. Repetido. Atmosfera de juízo final. Um levantar de medos e memórias mortas. Melhor assim. É dia esperado. Separar o joio que deixei crescer em meio ao trigo. Nesse campo vasto em que cultivo minha vida. Semeio ventos, às vezes. Coisas de sementes, colheita multiplicada. Depois de me re-colher inteira. Sentir a terra fria e úmida sob meu corpo quente, lavado em lágrimas insistentes, coração em marcha. Ordem de batalha. Travada a sós. Triunfo sobre mim mesma. Cansada de me auto-sabotar. In-consciente. O Sol se espreguiça entre nuvens leves. Desabou sobre a Terra o que era peso e possibilidade de vida. No silêncio da semente, o milagre. A vida fresca. O mundo de corpo e cabelos lavados. Secando ao sol. Dourando a pele e os pêlos. Reluz os campos de trigo. E o vento menino brinca. Meu corpo é todo janela. Tenho a alma debruçada à contemplar o mundo. Beleza que embriaga. Tem cheiro de recém-nascido. Sinfonia amarela, jazz-mim. Blues, toque das asas de borboletas. Doce sensualidade. Vontade de e-ternizar instantes. A pleno pulmões o universo canta em uníssono a vida. Explode estrelas, colisão de uni-versos, show de pirotecnia. E eu danço de olhos fechados, sem medo de perder o ritmo ou errar o passo. Porque quando deixo a música da vida vibrar inteira em mim e sinto ter tudo, sem nada ter...( Mãos vazias. Coração que se derr-ama). Quem mergulha solitário no mistério da vida se des-cobre acompanhado de tantas solidões que se abraçam. E abro os olhos. E giro. Dançando e sorrindo. Tenho as mãos cheias de rosas, girassóis e lírios. Giram no ar borboletas azuis e amarelas. Meus pés na grama verde. O sol sacralizando tudo com manto dourado. E vejo gente tanta chegar. Uma a uma. Recebe o que tenho nas mãos...flores. E o meu melhor abraço. Dai-me tua mão. Dança comigo. Declama no olhar a tua poesia sincera. Partilha comigo um instante verdadeiro. Deixa tua marca em minha alma. Quero te re-conhecer mesmo quando o que te anima despir-se desse corpo. Deixa tua pegadas im-pressas na minha história. Trans-forma. Encontro, sim. Dois universos que se tocam...Big Bang.
Re-veste de poesia teu olhar...E de-clama tua vida com todo teu ser.
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Cecília Braga

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Por não estarem distraídos
'Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos'.
Clarice Lispector

4 comentários:

Tomas disse...

Sintonia é tanta, moça!

Nunca vi disso. Sinceramente. Palavras tuas parecem minhas. E vice-versa. Grato pelo encontro. Feliz pela companhia. Alguns passos lado a lado, mesmo sendo curto o caminho, sei que o destino é bonito e profundo.

Um beijo carinhoso,
Tomas

Juliana disse...

Belo, como sempre.
A vida é mesmo assim. Cinzas de um vulcão em lava e cores de borboletas florindo.
Belo...

Beijos.

duda disse...

Pêlos em pé...

Mesmo do pé, a pele encrespa e suaviza em segundos... como naqueles segundos em que se morre e volta a viver.

A boca aberta ainda recebe o frio seco e quase arenoso do ar condicionado, enquanto leio de novo... e de novo... e de novo...

tenho saudades...

que a próxima sexta seja mais amena.

Marla de Queiroz disse...

Teu texto, Flor-de-Luz, cada vez mais bonito!
E esse conto da Clarice, um dos meus preferidos.
Não esqueço de vc, não, viu?
Amor com todo aquele abraço.