terça-feira, fevereiro 13, 2007

Castelos de Areia



“O amor é agonia e êxtase, liberdade e
prisão, desejo e solidão. É o que nos mantêm inteiros quando a vida nos
despedaça”.

“Apaixonar-se é maravilhoso...Só nos apaixonamos por uma razão, nada no mundo nos faz sentir tão bem...
O amor é campo minado. Basta um passo e nos despedaçamos, juntamos os cacos e, sem pensar damos outro passo. Acho que é da natureza humana. A solidão é tão ruim que preferimos sofrer a ficarmos
sozinhos”.

(Trechos do filme amor aos pedaços – Love & Sex).
Noites e noites tentando em vão encaixotar tantos pensamentos, modo de ser... Um tanto desse excesso do que sou e que ocupa tudo dentro de mim...Consome-me inteira, em banho maria.
Ando tropeçando nesses meus fragmentos enquanto caminho cautelosa, meu ser adentro... Queria retirar tudo, me deixar vazia de mim. Coisa de quem faz mudanças. E me vem inteiro o trecho de Clarice, um alerta de impossibilidade:
"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma".

Fico parada, com as mãos-na-cintura, me olhando inteira...por onde começar a re-forma. Há umas paredes a derrubar, outras a construir...ali mesmo, em volta do coração, é tarefa urgente. Mas ele é claustrofóbico. Ah, mas não gosto de nada com a palavra forma...formalidade, formando. Não sei caber em moldes. Não saberia re-formar.
Essas cores vibrantes me levam sempre a exaustão, mas não gosto do morno dos tons pastéis, nem de casa de cor uni-forme. Gosto de cores quentes e frias. Cansada de tantos humores. Desses dias claros em que tudo se condensa. E céu vai ficando azul-marinho, em dia pleno... noite se faz. Nuvem que gota a gota vai juntando tudo até precipitar-se.
Eu me precipito, me atropelo. Coisas de quem tem os sentidos excitados. E qualquer coisa, já é prenúncio de êxtase. Mas tem coisas que só querem seduzir os sentidos....Endoidecê-los. Tenho os sentidos já cansados de tantas promessas de gozo. Eles querem te perceber inteiro. E eu quero apenas ter o prazer de ser quem sou... em teus braços. Sem precisar me mudar de mim. Apenas ampliar os meus espaços, dilatar meus átrios. E te receber. Eu que nem conheço teus passos, mas te vejo caminhar livre, pés descalços e sem camisa aqui dentro. Eu me des-cobri querendo ser apenas tua morada.
Todo esse meu verso descabido sempre foi pra alcançar você. Com mãos trêmulas, tateando no escuro, na esperança dessa luz dos teus olhos. Nem sei mais o porquê desse discurso torto. Já Fechei a porta. Desejei Boa noite. E sai. Sem levar nada comigo, e sem querer nada de volta. Os braços nus. Quero deixar essa noite fria me doer até os ossos.
Gosto de me doer na mesma proporção em que me dou: inteira. Passos firmes e breves. Quero ir a divagar, desacelerando os pensamentos e essa taquicardia.
O tempo está para majestade. Corta o céu serpentinas de luz. Tantas considerações relampejam. Deixa esse silencio ensurdecedor ser palco, porque quero gritar pra mim mesma coisas que eu já sabia e me calei. Deixa eu sentir cada gota fria de tua indiferença me encharcar inteira, até pesar o corpo e se tornar difícil andar. Um dia este corpo-cadáver nada há de sentir. Por ora, quero sentir tudo. E até lá...meu coração há de fazer terapia, deitar no divã sua claustrofobia. Chega de pulsar assim: vermelho-vivo-vibrante-de-portas-abertas.
Tem gente que chega e leva tudo. Ah, eu sei. Sei conviver com meus vazios. Mas hoje, cansada de meus excessos, eu só queria não estar só.
Cessou tudo. Como tempestade que chega e se dissipa. Contrariando previsões. Tempo quântico, cheio de possibilidades. Só. Uma brisa leve enxuga meu corpo carente de toque que se arrepia. Alma lavada. E já agora, eu nada queria...estou repleta. Tomada por uma absurda compreensão de mim. Essa angústia de existir em teus braços...agora, é só angústia de existir. Existo na medida em que estou sendo. Não há como me definir sem reticências...e quero alguém que me perceba inteira pelos sentidos. Cansei de tanta hipocrisia disfarçada. Dessa gente que me acompanha porque sabe que vivo à la Oswaldo Montenegro e deixo a vida entrar pelo nariz. Conservo os pulmões sempre cheios e quando sopro, por vezes inflo egos. Cheios de si, escapam. Feito balão desejado que criança tem na mão e com lágrimas nos olhos ao menor vento ver partir....Chora até ser tomada por uma profunda alegria. Pessoas foram feitas pra voar. Sorrindo deixa a vida lhe eriçar os sentidos...
É dia com cheiro de mar e vai construir castelos na areia...gosta de lembrar que tudo tende a se dissolver...
Vida inteira feito criança que sabe valer a pena construir castelos na areia, dar corpo ao sonho, persistindo com esperança... e recomeçando sempre. E cada vez mais longe do mar, na tentativa de que nenhuma onda alcance. E com tanto amor, que faz gente grande sentir sua criança outra vez. E por ter estrelas nos olhos, atrai. Gente que chega de mansinho para olhar, gente que passa olhando, sorrindo. Gente que chega para ajudar. E gente que chega pra destruir. Vez em quando consegue. Criança esperneia, chora, faz bico e diz que não quer mais....logo mais quer de novo, sem mágoa. Porque sabe, tudo vai se dissolver... no mar....um dia. E segurando um punhado de areia que lhe escorre pelas mãos, escapando ao sol...sorri assertiva...alguns grãos brilham. E ela quer brilhar. Ser esse grãozinho de ouro pra alguém.
É que a nossa criança tem imperativo em nós, vivemos a fazer colagens... Mas não adianta. Lá está o amor a nos dizer que não estamos inteiros...
E mesmo sabendo que. Quem não quer se dissolver no a-mar e se sentir inteiro, amparado feito criança que encontra consolo e paz em colo de mãe e segurança nos braços fortes do pai?!
*
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Cecília Braga

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar".

Clarice Lispector




8 comentários:

Camilinha disse...

Simplesmente MARAVILHOSO!!!
O que é certo, e o que é errado afinal?

" O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do hmem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja." Clarice Lispector em Onde Estivestes de noite.

Juliana disse...

"Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida". Clarice Lispector.
Belo texto.
Beijos.

Cury disse...

"Ao som de John Lennon...porque a música sabe o tempo certo do silêncio."

Você não imagina o quanto isso tem a ver com o texto e o porquê deu ter escrito ele.

Jonathan disse...

Obrigado pela explicação sobre o que é Ruah!

:)

- E dançar após o fim da música é inércia :p

Rafael disse...

Esse bolg é um achado.
Daqueles que merecem uma foto com legenda no livro de Literatura das próximas gerações.

Adoro todos esses simbolismos paralelos. São muitas imagens mantias ao mesmo tempo, por muito tempo. Palmas para você!
=D

Pri disse...

Seu blog é especial!
Te linkei no Quimera =)

Elenita disse...

Vc é linda, sabia? =)
Beijo grandão pra vc.

Rafael disse...

A curiosidade bateu forte. Hahaha
raf-me@hotmail.com
Estou esperando ansioso.
xD