quarta-feira, janeiro 24, 2007

Pensamento Parasita

Karina – Hoje não vai ter treino nem ensaio.
Antônio – Oxente, por que?
Karina – Por nada
Antônio – Nada e o que mais?
Karina – Nada, porque eu tenho mais o que fazer além de ficar aqui olhando pra sua cara de leso.
Antônio – E depois?
Karina – Depois de quê?
Antônio – Depois que você fizer o que você tem que fazer , além de ficar olhando pra minha cara de leso.
Karina – Eu, se fosse tu, não esperava não!
Antônio - Não vou esperar mesmo não, Karina.Sabe por quê? Por que esse tal amor que personagem finge que sente, amor dessa qualidade que tem paciência até pra esperar passar entre um anuncio e outro, para somente no voltamos a nos apresentar, para concluir o que tinha fingido que tinha começado! Esse tal amor é somente de ficção, e é muito diferente desse negócio aqui que eu sinto, esse negócio de doido! Que eu não encontro nome, e nem em todas as palavras existentes e que não tem som e nem letra escrita que explique como ele é exagerado!
Karina – onde foi que tu leu isso?
Antônio - Eu nem li, nem decorei, e nem sei repetir de novo, Porque simplesmente, esse tipo de verdade não carece de ser documentado em papel, ou romance e nem filme de cinema, pois não é da conta de ninguém a não ser da pessoa que sente , além da outra responsável pelo afeto causado! A conversa aqui é somente entre tu e eu, eu e tu, Karina. Finge somente uma vez que tu é tu que é pra ver se tu descobre o que tu sente.. Porque esse beijo que eu vou te dar agora, esse vai ser meu de verdade!! (Filme - A Máquina).
Desarticulada. Desconcertada. Reflexiva. E não haveria como ser diferente.
Tem coisas que me deixam é despida. A palavra certa é essa: despida. Envergada pelo peso da realidade e envergonhada perante minha nudez. Ahã! Andei lendo. Milan kundera - Risíveis Amores. Seria Cômico se não fosse tão trágico: fingimento, dissimulação, jogo, encenação, falsidade....Tudo que possa mascarar o que realmente sentimos e queremos. Todos os nossos problemas de relacionamentos emanam daqui: não há autenticidade. Não há verdadeira comunicação. Hamlet cabe bem aqui: "Isto acima de tudo: seja verdadeiro contigo mesmo; e deverá suceder, como a noite ao dia, que não poderás então ser falso com ninguém". É conselho do idoso Polônio ao filho Laerte. Não só a ele. Eu sei, é coisa por demais difícil mostrar-se. Ainda mais mostrar-se vulnerável, feio, ciumento, invejoso, ganancioso, mesquinho, e uma lista de coisas que lutamos sempre pra esconder. Sabemos lidar com a ambivalência não. Somos sim cheios desses sentimentos contraditórios.
Entristece? Ah, sim. Ninguém quer ser visto assim nu pelo olho do outro. Medo de não ser aceito.... É que medo de ser mal visto é só mesmo medo de ser mal quisto. O conflito é entre parecer e ser; entre parecer e ter. É sempre o que parece. O que o outro enxerga em mim. O que eu quero que ele veja. É nesse jogo mesquinho e egoísta de todo dia em que as pseudo-relações são construídas. Alicerçadas em ilusões, em mal-ditos, mal-entendidos. Não acredito na música de Roberto Carlos e nem inflo o meu peito proclamando que quero ter um milhão de amigos. Acho impossível. Amizade não é coleguismo. Pede: - tempo para estar, doação do ser, entrega. - sentimentos verdadeiramente partilhados, sinceridade e honestidade consigo e com o outro. - escuta gentil e aceitação de quem somos, do nosso ritmo e nosso passo. - Muita Paciência: não estou pronta e não estarei...nem quando o sopro de vida que há em mim escapulir num suspiro. - Sinceridade e responsabilidade pelos nossos sentimentos, porque as reações e sentimentos que tenho perante qualquer atitude do outro, emanam de mim.
E se muitas vezes batemos porta, fazemos birra, bicos e caras e bocas, melindres e mais melindres, é a criança em nós. Nossa imaturidade. Crescer é trabalho de uma vida. Maturar até morrer. São tantas mortes em vida. E tanta ressureição. Comunicação franca: porque somos seres únicos. Diversidade é palavra acertada e respeito é fundamental. Porque eu não penso, falo, sinto, vejo e vivencio como ninguém. E o que se diz, nem sempre é o que se ouve. E o significado que dou as coisas, inclusive às palavras é só meu. E tudo isso demanda tempo e vontade de descobrir. E amor. Exercícios, tantos: deixar de lado minhas dores e ser para o outro. Saber que ele me entrega o seu sagrado e recebê-lo com gratidão, respeito e mãos gentis. Não querer usar a sua fala, o seu grito, o seu riso, como introdução para me colocar em cena, para me identificar ou comparar. Não querer ser o messias e lhe dizer o que deve ser feito e impedir o outro de crescer. Tomar suas responsábilidades para mim e deixá-lo assim sobre o meu domínio por dependência.
De todas as frases marcantes do livro, esse trecho ficou mais forte: "...jamais encontrou nada de essencial nem em seus amores, nem em seu trabalho, nem em suas idéias. Ele é honesto demais para admitir que encontra o essencial no não essencial, mas é fraco demais para não desejar secretamente o essencial. Ah, Senhoras e Senhores, como é triste viver quando não se pode levar nada a sério, nada e ninguém! (...) A antítese essencial deste mundo tanto mais existente quanto menos essencial é".
Ah, eu quero é um amor assim que nem o de Antônio! Sentimento é coisa que contagia. Vibra numa boa frequência e o universo te devolve. Se eu me levar a sério, levarei os outros. Energia, propaga.
E sabedoria e prudência com as escolhas das amizades e amores....fingimento é muito sabe.
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Cecília Braga

3 comentários:

Duda disse...

uau...

Acho que vou exercitar mais a minha leitura... começar a passear novamente pelos blogs de meus amigos (os que acho que são potencialmente e essencialmente mais que colegas da época do 2º grau)

Inventar sentimentos tem sido a mania dos últimos anos (e devo admitir que esse novo "mal do século" andou se misturando nas minhas veias já saturadas de rancor).

Um grande abraço, Maria... continua escrevendo... sempre...

Elenita disse...

Puta que pariu. Puta que pariu.
E nua fiquei eu.

Esse eu vou roubar inteiro. Pra vida, sabe?

Obrigada pelo tapa. E um grande beijo pra você.

Midy disse...

... huhauhauhauhauhauahua...

Esse seu texto é um dos meus favoritos...

Amei... E olhe q não gosto muito de ler seus textos pq são muitos grandes.

Tah lindo binha

xero chucrutinha!